O comando da Segurança Pública do Espírito Santo declarou, nesta segunda-feira (2), que o delegado e ex-subsecretário de Inteligência Romualdo Gianordoli Neto operou um Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat) “paralelo” para ocultar provas durante a Operação Baest. A denúncia aponta que diálogos entre um empresário investigado e o desembargador federal Macário Júdice Neto foram intencionalmente omitidos do relatório policial, o que motivou a decisão do Estado de reanalisar integralmente o inquérito que apura o braço financeiro do tráfico de drogas.
A revelação ocorreu em uma coletiva de imprensa que reuniu o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, o secretário de Segurança Pública, Leonardo Damasceno, e o secretário de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc. O encontro marcou o primeiro pronunciamento oficial da alta cúpula sobre a exoneração de Gianordoli, ocorrida em outubro do ano passado, após a conclusão da Operação Baest em setembro de 2025.
Omissão de provas e “Ciat paralelo”
A decisão de revisar o caso ocorre após Gianordoli admitir à Corregedoria da Polícia Civil, em depoimento prestado no dia 2 de fevereiro deste ano, que o celular de um empresário da Serra, alvo da operação, continha conversas com o desembargador Macário Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). O magistrado foi preso no Rio de Janeiro pela Polícia Federal sob suspeita de obstrução de investigação e vazamento de informações a uma organização criminosa.
Segundo o secretário Leonardo Damasceno, o relatório final assinado por Gianordoli não mencionava o magistrado ou os diálogos. O delegado-geral José Darcy Arruda explicou que as ferramentas oficiais do Ciat são auditáveis, mas que o ex-subsecretário produziu relatórios fora dessa plataforma.
“Ele criou um Ciat paralelo. Agora a Corregedoria quer saber dele. Por que fez isso por fora? O que o levou a fazer isso? Qual era a intenção? Qual era o objetivo? Por que não pediu ao Ministério Público e ao Poder Judiciário uma autorização para compartilhar as informações? Por que ficou de maio a setembro com esse material escondido? É isso o que queremos saber dele”, questionou Arruda. O secretário Damasceno acrescentou que o delegado, ao deixar o Ciat, levou computadores com conteúdo pertencente à Polícia Civil.
O secretário Álvaro Duboc ressaltou que a conduta esperada envolveria o envio das provas a instâncias superiores, devido à prerrogativa de foro do desembargador. “Os delegados deveriam ter tomado essa providência tão logo tomaram conhecimento se haveria algo de ilícito na relação entre o empresário e o magistrado”, pontuou Duboc. O material bruto será reavaliado para embasar uma possível segunda fase da operação.
Defesa do delegado e justificativa técnica
Romualdo Gianordoli, que ganhou projeção estadual em março de 2024 ao comandar a prisão do traficante Fernando Moraes Pereira Pimenta (conhecido como Marujo), negou as acusações. Ele classificou a narrativa de um Ciat paralelo como “artificial, conveniente e absolutamente dissociada da realidade dos fatos”.
De acordo com o delegado, a investigação seguiu o trâmite normal da unidade, com registros físicos na fase inicial e posterior digitalização via Processo Judicial Eletrônico (PJe). Gianordoli argumentou que incluir os nomes dos investigados da segunda fase no relatório final da primeira etapa configuraria uma violação de sigilo.
“Isso não é transparência. É sabotagem da investigação. É entregar o jogo, alertar alvos, destruir provas e garantir a impunidade. Só alguém completamente alheio à prática investigativa ou comprometido com outro tipo de interesse defenderia algo assim”, rebateu o policial, acrescentando que a desestruturação do núcleo investigativo inviabilizou um relatório mais aprofundado.
A defesa do empresário citado na investigação classificou as imputações como infundadas e motivadas por interesses políticos e de autopromoção, ressaltando que, após seis meses da conclusão do relatório, não houve denúncia ou instauração de processo penal.
Embate judicial e histórico de exoneração
O conflito entre Gianordoli e a cúpula da Segurança tornou-se público no final do ano passado. Após ser exonerado da Subsecretaria de Inteligência em outubro de 2025 e dispensado de um cargo de assessoria em dezembro, o delegado publicou vídeos nas redes sociais alegando que sua demissão ocorreu porque a Operação Baest alcançou pessoas com ligações com o governo estadual e o alto escalão da sociedade. Ele afirmou ainda que a Polícia Civil estava “corroída”.
A Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) rebateu, atribuindo a demissão a uma quebra de confiança e a desgastes nas relações interpessoais. O embate escalou quando o delegado-geral respondeu a seguidores no Instagram afirmando que Gianordoli “se apropriou de informações sensíveis de investigações policiais, começou a negociar para benefício próprio e não conseguiu conviver com a frustração”.
Em resposta, Gianordoli acionou a Justiça com uma queixa-crime contra José Darcy Arruda por calúnia, difamação e injúria, exigindo retratação pública. Um pedido de liminar para a remoção imediata das postagens de Arruda foi negado pela Justiça durante o plantão. Atualmente de férias, o delegado, que é servidor concursado, deve retornar às funções na corporação no dia 29 de janeiro.
Desdobramentos políticos e o governador Casagrande
A crise gerada pelas informações extraídas do celular do desembargador Macário Júdice Neto alcançou o Executivo estadual. A Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a análise para eventual abertura de investigação contra o governador Renato Casagrande (PSB). O pedido, encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, baseia-se em mensagens que sugeririam uma intermediação do governador junto ao magistrado em favor de um prefeito aliado investigado por improbidade administrativa.
Durante a coletiva de segunda-feira (2), Casagrande negou irregularidades e negou que a Operação Baest tenha motivado as exonerações de Gianordoli e sua equipe. “Esse delegado sabe por que foi exonerado, ele está buscando um artifício. Ele foi exonerado por incapacidade de conviver com colegas e por uso de informações da sua função para cumprir objetivos não republicanos”, declarou o governador.
Sobre as conversas com o juiz federal, Casagrande afirmou tratar-se de diálogo de caráter institucional. “Foi uma conversa pública e transparente, que eu posso ler para todos vocês. Foi uma conversa institucional e republicana, não tinha nenhum interesse a não ser, no ambiente que estamos vivendo, reduzir instabilidades políticas no município”, disse o chefe do Executivo capixaba, reforçando que o episódio não altera seu planejamento para disputar uma vaga ao Senado nas próximas eleições.
A solicitação da Polícia Federal aguarda análise no STF, enquanto a Corregedoria da Polícia Civil e o Ministério Público Estadual conduzem procedimentos para apurar a conduta de Romualdo Gianordoli e o destino das provas sigilosas.
*com informações de A Gazeta e Folha Vitória


















