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Cabo da PM atira e mata casal de mulheres após briga de vizinhas em Cariacica

08 abr 2026 - 20:10

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Militar, que já respondia criminalmente pela morte de uma mulher trans em 2022, deixou posto interno no quartel sem autorização para atender a um chamado da ex-esposa. Câmeras de segurança registraram a ação
Cabo da PM atira e mata casal de mulheres após briga de vizinhas em Cariacica. Foto: Reprodução

Duas mulheres foram mortas a tiros por um cabo da Polícia Militar na manhã desta quarta-feira (8), por volta das 10h30, na Rua São Domingos, bairro Cruzeiro do Sul, em Cariacica, na Grande Vitória. O militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, que estava fardado e em horário de expediente, dirigiu-se ao local em uma viatura policial e efetuou os disparos contra o casal Daniele Toneto Rocha, de 45 anos, e Francisca Chaguiana Dias Viana, após ser acionado por sua ex-esposa em decorrência de um desentendimento entre as moradoras.

Uma das vítimas morreu de forma imediata no local. A segunda mulher chegou a ser socorrida por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que chegou cerca de 13 minutos após os disparos, mas não resistiu aos ferimentos e foi a óbito no hospital. O autor dos disparos entregou a arma, foi detido e encaminhado à Corregedoria da corporação.

A dinâmica do crime e o registro em vídeo
Imagens de câmeras de segurança registraram a chegada da viatura e a ação do policial. Nos registros, as vítimas aparecem sentadas em frente a uma residência. O cabo e outros agentes descem do veículo. Minutos depois, o militar saca a arma e atira contra as mulheres. O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Ríodo Rubim, afirmou que as imagens não indicam a existência de discussão ou agressão física antes dos tiros.

Pelo vídeo, é possível observar que uma das mulheres é alvejada na calçada e cai. A segunda vítima tenta fugir, mas é perseguida pelo militar e atingida por diversos disparos no outro lado da rua.

A atitude causou desespero nos outros policiais presentes. As imagens mostram o suspeito se aproximando de um colega e aparentando discutir. O outro policial coloca as mãos na cabeça, enquanto o autor dos disparos tira o colete à prova de balas.

Uma testemunha relatou o momento da chegada da guarnição: “O policial já chegou com a arma em punho e atirou nas meninas. A gente entende que foi uma execução porque foi muita covardia. Elas estavam sentadas, sozinhas, e ele chegou praticamente atirando. Uma delas tentou correr, mas ele foi em direção a ela e também atirou”.

Motivação e a versão da ex-esposa
A motivação do crime está atrelada a uma desavença entre as vítimas, que moravam no mesmo prédio, e a ex-mulher do policial, residente em outro andar. Segundo moradores, os atritos eram antigos. Na manhã desta quarta-feira, a discussão teve início devido a um ar-condicionado, com acusações mútuas sobre furto de energia.

A situação escalou, segundo a ex-esposa do PM, quando as vítimas foram até o portão de sua casa e proferiram ofensas contra o filho que ela tem com o militar, uma criança de 8 anos com autismo.

A ex-mulher relatou que, durante a discussão prévia à chegada da polícia, houve agressão física. “Eu estava no meu limite. Elas estavam falando que o ‘capeta’ do meu filho não é autista, porque ele estava jogando bola. Eu desci com uma faca e juntaram as duas, me jogaram no muro me batendo e agredindo. Me machucaram. Eu falei que não ia agir mais. Subi, liguei para o meu ex-marido, falei que precisava de duas viaturas”, declarou.

Ainda segundo a versão da ex-esposa, as vítimas teriam avançado contra o militar assim que ele chegou. “Na hora que meu ex-marido entrou no portão, e ele já ia subindo, eu falei que elas estavam na rua, estavam lá embaixo. Nesse momento, uma delas foi para cima do meu ex-companheiro e ele na mesma hora sacou a arma e começou a atirar”, afirmou a moradora. Esta versão, no entanto, contrasta com as imagens de segurança recolhidas.

Histórico do policial e afastamento das ruas
Luiz Gustavo Xavier do Vale ingressou na corporação em 2008, segundo o Portal da Transparência do Governo do Estado, e atua na 1ª Companhia do 7º Batalhão. Ele estava afastado do patrulhamento de rua desde julho de 2022, exercendo a função de guarda de quartel em uma companhia em Itacibá.

O afastamento preventivo ocorreu porque o cabo responde a um processo pelo assassinato de uma mulher trans, identificada como Lara Croft, de 34 anos. O caso aconteceu no bairro Alto Lage, também em Cariacica. Na ocasião, a PM alegou que, durante uma abordagem, a vítima resistiu, tentou agredir os policiais, retirou um barbeador da bolsa e tentou pegar a arma de um dos militares.

Moradores da região, no entanto, contestaram a versão, afirmando que Lara costumava fazer piadas com os policiais durante abordagens e que já havia sido ameaçada por eles. O laudo da perícia da Polícia Civil apontou que a vítima de 2022 foi atingida por disparos na mão esquerda, no peito, no pescoço, no rosto e nas costas. O militar foi denunciado pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) e a Justiça aceitou a denúncia. O processo segue em tramitação.

O MPES e o Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) foram questionados sobre o andamento e o prazo para o desfecho do caso de 2022, mas ainda não se manifestaram.

Investigação e posicionamento das autoridades
Sobre o duplo homicídio ocorrido no bairro Cruzeiro do Sul, o coronel Ríodo Rubim explicou que o deslocamento do policial foi irregular. Ele pediu apoio aos colegas que estavam em serviço para ir ao local, mas não poderia ter deixado o posto de guarda do quartel sem autorização. Os nomes dos outros policiais presentes na ocorrência não foram divulgados, mas eles serão ouvidos pela investigação. O flagrante está sendo lavrado.

“O que temos até agora é preliminar. Ele se entregou, colocou a arma ao chão. É uma ocorrência muito complexa e muito infeliz. Como instituição, falamos que a atitude do policial não representa a conduta da PM no dia a dia. Vamos à rua para levar segurança para as pessoas. Lamentamos e continuaremos firmes para proteger as pessoas”, declarou o comandante-geral, informando que o cabo permanecerá preso no quartel.

O secretário de Segurança Pública do Estado, Leonardo Damasceno, exigiu rigor nas apurações. “Esperamos que esse policial militar envolvido nesse caso seja preso”, pontuou.

O ex-governador Renato Casagrande também se pronunciou sobre o caso: “Lamento profundamente o crime ocorrido em Cariacica, que tirou a vida de duas mulheres. Nada justifica a violência, muito menos quando parte de quem deveria proteger a sociedade. Que o crime seja apurado com rigor e os responsáveis que cometeram essa brutalidade recebam punição severa”.

A Polícia Civil do Espírito Santo informou, em nota, que, como o caso se configura preliminarmente como crime militar, a investigação não foi encaminhada, até o momento, à Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Mulher (DHPM). As corporações foram demandadas para mais esclarecimentos e a cobertura será atualizada conforme os desdobramentos oficiais.

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Atualizado: 08/04/2026 20:12

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