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41% dos brasileiros veem crime organizado agir no próprio bairro, mostra pesquisa

11 maio 2026 - 10:55

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo, com informações de Folha de S. Paulo

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Pesquisa do Datafolha revela que a presença do crime organizado altera regras de convivência e impõe restrições silenciosas. Medo da violência atinge 96% da população e afasta mulheres das ruas no período noturno
Facções ditam rotina em bairros de 42 milhões de brasileiros e golpes digitais lideram crimes no país. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O crime organizado atua de forma direta no cotidiano de 68,7 milhões de brasileiros e dita as regras de convivência para cerca de 42,2 milhões de pessoas, revela a pesquisa “Os gatilhos da insegurança”, divulgada pelo Datafolha neste domingo (10). Encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o levantamento ouviu presencialmente 2.004 pessoas em 137 municípios entre os dias 9 e 10 de março. Os dados apontam que o controle territorial das facções altera os hábitos da população, gera um mapa de medo que afeta desproporcionalmente as mulheres e ocorre em paralelo a um cenário onde 40% dos cidadãos foram vítimas de algum delito nos últimos 12 meses, com destaque para as fraudes financeiras digitais.

A capilaridade do crime organizado e o controle territorial
De acordo com o Datafolha, 41% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam notar a atuação do crime organizado na vizinhança onde vivem. Outros 51% declaram que o problema inexiste na sua região, enquanto 7% não souberam responder. Entre os que percebem a criminalidade, 43% a classificam como “pouco visível”, 25% como “muito visível” e 21% como “visível”.

A presença dessas organizações repercute diretamente no comportamento dos moradores. Do total que reconhece a atuação criminosa no bairro, 35% avaliam que os grupos influenciam muito as decisões e regras de convivência locais. Para 26,5%, o impacto é moderado e, para 19%, baixo.

As imposições geram restrições silenciosas. Entre os que veem o crime na própria rua, 81% têm medo de ficar em meio a um confronto armado, 75% evitam determinados locais e 71% temem que familiares se envolvam com o tráfico. O receio de sofrer represálias ao denunciar um delito atinge 64%. Há também impactos econômicos: 12,5% dizem ser obrigados a contratar serviços (como internet, energia e água) indicados pelos criminosos, e 9% são forçados a comprar marcas específicas.

Segundo o FBSP, esses números demonstram que a influência sobre a vida dos brasileiros “não exige necessariamente uma presença ostensiva permanente, com barricadas e homens armados visíveis o tempo todo”. O presidente da instituição, Renato Sérgio de Lima, avalia a situação atual: “A gente tem que reconhecer que o Brasil vive um momento de consolidação criminal, com um conjunto de organizações que têm controlado territórios, mercados, e sobretudo regulado a vida da população”.

A percepção do crime organizado é maior nas capitais (56%) e nas regiões metropolitanas (46%), mas atinge 34% no interior. “Estamos falando que um terço da população do interior está reconhecendo a presença desses grupos”, destaca a diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno. O dado reflete a expansão nacional de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Presentes nas 27 unidades da Federação, as organizações são hegemônicas em 13 estados.

O mapa do medo e a restrição ao cotidiano feminino
A pesquisa constata que 96,2% dos brasileiros têm medo de ao menos uma das 13 situações de violência apresentadas pelos pesquisadores. Os temores mais citados de forma geral são: ser vítima de golpe financeiro digital (83,2%), sofrer assalto à mão armada (82,3%), ser morto durante um assalto (80,7%) e ter o celular subtraído (78,8%).

No recorte por gênero, o medo impacta de maneira mais aguda e restritiva o cotidiano das mulheres. Nos últimos 12 meses, 40,9% delas deixaram de sair à noite por medo da violência, contra 29,8% dos homens. Além disso, 37,8% das mulheres optaram por não sair às ruas com o aparelho celular por receio de assaltos, ante 28,9% do público masculino. De forma geral, o Datafolha também mediu que 36,5% dos brasileiros chegaram a mudar de percurso nas ruas para evitar riscos.

Diversos medos ultrapassam a marca de 80% entre o público feminino, liderados pelo receio de assalto à mão armada e golpes digitais (ambos com 86,6%). Na sequência, aparecem o temor de ser morta em um assalto (86,2%), ter o celular roubado (83,6%), ser vítima de agressão sexual (82,6%) ou bala perdida (82,3%) e ter a casa invadida (82,6%). Entre os homens, nenhuma das situações pesquisadas alcançou o patamar de 80%.

De acordo com o FBSP, “o mapa feminino do medo incorpora, no centro da percepção de insegurança, uma ameaça que para os homens não ocupa lugar equivalente”, indicando que “a experiência feminina da insegurança é mais totalizante”.

Os dados sobre o medo feminino são divulgados no momento em que o Brasil registra uma alta de 7,5% nos casos de feminicídio. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, foram 399 mulheres mortas no primeiro trimestre de 2026, o maior índice para o período na série histórica de 11 anos.

Golpes digitais lideram ocorrências entre os brasileiros
Além de medir a percepção e o medo, o Datafolha mapeou a vitimização concreta: 40% dos entrevistados sofreram algum tipo de crime no último ano. Os golpes digitais que resultam em perdas financeiras lideram as estatísticas, atingindo 15,8% das vítimas, o equivalente a 26,3 milhões de pessoas.

Em segundo lugar, 13,1% dos brasileiros afirmam conhecer alguém ou ter um familiar que foi assassinado no último ano. A lista segue com vítimas de fraudes em aplicativos bancários ou Pix (12,4%), vítimas ou conhecidos de vítimas de bala perdida (9,7%), furtos e roubos de celular (8,3%), assaltos na rua (6,5%) e conhecidos mortos em assaltos (6,2%).

A pesquisa identifica variações conforme a faixa de renda. Nas classes A, B e C, o crime com maior incidência é o golpe pela internet ou celular. Já nas classes D e E, a liderança muda: 15,2% dos entrevistados relatam que algum familiar ou conhecido foi assassinado nos últimos 12 meses, evidenciando o impacto letal da violência nas camadas mais vulneráveis da população.

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Atualizado: 11/05/2026 10:58

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