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Brasil avança em acesso à energia, mas desigualdade em saneamento e lixo persiste, aponta IBGE

22 ago 2025 - 16:25

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Nova pesquisa revela que, enquanto 99,8% dos lares têm energia elétrica, milhões de brasileiros, principalmente na zona rural, ainda queimam lixo e não possuem acesso à rede de esgoto ou água encanada
Brasil avança em acesso à energia, mas desigualdade em saneamento e lixo persiste. Foto: Getty Images

Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira (22) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) traça um panorama detalhado dos 77,3 milhões de domicílios brasileiros em 2024. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua revelam um país com acesso quase universal à energia elétrica, mas que ainda enfrenta profundas desigualdades no saneamento básico e na coleta de lixo, com disparidades acentuadas entre as zonas urbana e rural. O levantamento aponta também para transformações sociais, como o envelhecimento da população, o aumento de moradias com apenas uma pessoa e mudanças na composição racial declarada.

As informações são do módulo Características Gerais dos Domicílios e Moradores e representam a primeira divulgação anual após a reponderação dos dados com base no Censo de 2022.

Saneamento e lixo: o abismo entre campo e cidade
A coleta de lixo atendia 93,1% dos domicílios em 2024, com a coleta direta na propriedade crescendo de 82,7% em 2016 para 86,9% neste ano. O Nordeste registrou o maior avanço, saltando de 67,5% para 78,4% no período, embora ainda possua a menor cobertura entre as regiões.

Apesar do progresso, a pesquisa mostra que 4,7 milhões de lares (6,1%) ainda queimam o lixo na própria propriedade. Essa prática é significativamente mais comum nas áreas rurais, onde ocorre em mais da metade das residências (50,5%). Nas regiões Norte e Nordeste, os percentuais são de 14,4% e 13,1%, respectivamente, somando 3,5 milhões de domicílios com essa prática.

Segundo o analista da pesquisa, William Kratochwill, o dado é preocupante. “É um dado ainda preocupante, que acarreta aumento de poluição, e mesmo insalubridade para a zona rural, pois o lixo precisa ficar acumulado de alguma forma até que seja queimado”, afirma.

No quesito esgotamento sanitário, a desigualdade é ainda mais evidente. Apenas 9,4% dos domicílios rurais estavam ligados à rede geral de esgoto em 2024, contra 78,1% nas áreas urbanas. No total do país, o indicador subiu de 68,1% em 2019 para 70,4% em 2024.

Cerca de 11,1 milhões de moradias (14,4% do total) ainda lançam seus dejetos em fossas rudimentares, valas, rios, lagos ou no mar. Essa condição é mais crítica na Região Norte, onde 36,4% dos domicílios (2,1 milhões) utilizam essas formas de esgotamento, superando os que têm acesso à rede geral (24,7%). No Nordeste, o percentual é de 25,1%, correspondendo a cinco milhões de lares.

A dificuldade de expansão da infraestrutura é uma das causas. “Criar essa estrutura é moroso e caro, então a zona rural por ser afastada e dispersa torna a implantação mais complexa. Essa é uma justificativa para a zona rural ter essa carência no acesso tanto à rede geral de esgoto quanto de água”, explica William.

O abastecimento de água via rede geral alcança 86,3% dos lares brasileiros, mas apenas um em cada três domicílios rurais (31,7%) tem acesso ao serviço. Nas áreas urbanas, a proporção é de 93,4%. A maior parte das residências rurais depende de poços, fontes ou outras formas, como caminhões-pipa.

Energia elétrica: cobertura próxima da universalização
Em contraste com os desafios do saneamento, o acesso à energia elétrica é uma realidade para 99,8% dos domicílios brasileiros, seja pela rede geral ou por fontes alternativas. A cobertura é alta em todas as regiões, variando de 99,4% no Norte a 99,9% no Sudeste, Sul e Centro-Oeste.

A disponibilidade em tempo integral é garantida para 98,4% dos lares conectados à rede geral. Mesmo nas áreas rurais, a cobertura de energia chega a 99,2%, embora a dependência de fontes alternativas seja maior, especialmente na Região Norte, onde a rede geral atende 85,2% dos domicílios rurais.

Moradia e bens: menos casa própria, mais aluguel
A pesquisa identificou uma mudança significativa no perfil de moradia dos brasileiros. O número de domicílios alugados saltou de 12,3 milhões em 2016 para 17,8 milhões em 2024, um aumento de 45,4%. Simultaneamente, a proporção de domicílios próprios e já pagos caiu de 66,8% para 61,6% no mesmo período.

Para o analista da pesquisa, essa tendência pode indicar uma maior concentração de riqueza. “Se não se criam oportunidades para a população adquirir o seu imóvel, as pessoas precisam partir para o aluguel. Ao passo que temos também na economia um processo muito longo de inflação e salário reduzidos, o que cria mais dificuldades para as pessoas alavancarem seu patrimônio”, avalia William.

Em relação à posse de bens, a PNAD Contínua mostra que no Norte e Nordeste, a posse de motocicletas (33,5% e 37,9%, respectivamente) supera a de automóveis (29,7% e 28,8%). Já no Sul, 69% dos lares possuem automóvel. A máquina de lavar roupa, presente em 70,4% dos lares do país, evidencia a desigualdade regional: enquanto no Sul a cobertura é de 90,0%, no Nordeste é de apenas 40,5%.

Retrato da população: envelhecimento e novas configurações
O perfil demográfico do Brasil continua em transformação. A população com menos de 30 anos, que representava 49,9% do total em 2012, caiu para 41,9% em 2024. No mesmo período, a parcela com 30 anos ou mais cresceu de 50,1% para 58,1%. O grupo de pessoas com 65 anos ou mais já corresponde a 11,2% da população.

A pesquisa também captou mudanças na autodeclaração de cor ou raça. Entre 2012 e 2024, o percentual de pessoas que se declaram brancas caiu de 46,4% para 42,1%, o menor da série histórica. Já a proporção de declarados pretos subiu de 7,4% para 10,7%.

Outra tendência marcante é o crescimento de domicílios unipessoais, ou seja, com apenas um morador. Eles passaram de 12,2% do total em 2012 para 18,6% em 2024. O perfil desses moradores varia por gênero: entre os homens que vivem sozinhos, 57,2% têm entre 30 e 59 anos. Já entre as mulheres, 55,5% têm 60 anos ou mais. “O perfil de domicílios unipessoais também é formado por pessoas que estão no final do ciclo da vida, em sua maioria mulheres, cujos filhos saíram de casa para formar suas famílias, ou com o parceiro já falecido”, conclui o analista.

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Atualizado: 22/08/2025 16:26

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