O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu, nesta quarta-feira (18), reduzir a taxa básica de juros (Selic) de 15% para 14,75% ao ano. A medida, que representa um corte de 0,25 ponto percentual, busca estimular a atividade econômica brasileira, mas foi aplicada com cautela pelas autoridades monetárias em decorrência das oscilações do mercado internacional e da pressão sobre os preços do petróleo, fatores impulsionados pelo conflito no Oriente Médio.
A decisão marca o início de um novo ciclo de calibração da política monetária do país. Segundo o Banco Central, a manutenção prolongada da Selic em um patamar contracionista já demonstrou impactos na desaceleração da economia, o que permitiu o atual ajuste. Votaram a favor da decisão o presidente do BC, Gabriel Muricca Galípolo, e os diretores Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.
Cenário global e os riscos inflacionários
O embasamento para o ritmo moderado da redução reside, prioritariamente, nas tensões externas. O documento divulgado pelo Copom detalha que o ambiente global tornou-se mais incerto devido ao acirramento de conflitos geopolíticos, citando o envolvimento de Irã, Estados Unidos e Israel. O comitê avalia os impactos prospectivos dessa guerra sobre a cadeia de suprimentos global e sobre os preços de commodities que afetam a inflação no Brasil.
“O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes”, destacou o Banco Central em nota oficial.
Mercado interno e expectativas
No cenário doméstico, o Banco Central aponta para uma trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, conforme o esperado, embora o mercado de trabalho ainda apresente sinais de resiliência. A inflação cheia e as medidas subjacentes mostraram arrefecimento nas divulgações recentes, porém permanecem acima da meta estipulada.
As expectativas do mercado financeiro corroboram a preocupação da autarquia. De acordo com a pesquisa Focus, as projeções de inflação situam-se em 4,1% para 2026 e 3,8% para 2027. Já a projeção oficial do próprio Copom para o terceiro trimestre de 2027, considerado o horizonte relevante para a política monetária, está fixada em 3,3%.
O BC listou os principais riscos que norteiam sua postura cautelosa:
- Riscos de alta: Desancoragem prolongada das expectativas de inflação; maior resiliência na inflação de serviços; e políticas econômicas que possam gerar impacto inflacionário, como uma taxa de câmbio persistentemente depreciada.
- Riscos de baixa: Desaceleração da atividade econômica doméstica e global mais acentuada do que o projetado; redução nos preços das commodities.
Setor produtivo e trabalhadores reagem
Apesar do início do ciclo de cortes, a decisão de reduzir a Selic em apenas 0,25 ponto percentual foi recebida com ressalvas por diferentes segmentos da economia. Indústria, comércio e sindicatos avaliaram a direção como correta, mas a intensidade como insuficiente para reverter os entraves do crescimento, destravar investimentos ou aliviar o endividamento das famílias.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) argumentou que a taxa de juros real permanece acima do nível neutro e que a política monetária segue excessivamente restritiva. “Essa cautela do Banco Central ainda é excessiva e seguirá penalizando ainda mais nossa economia”, declarou Ricardo Alban, presidente da CNI.
No comércio, a Fecomércio-SP destacou que as incertezas externas e a inflação de serviços pressionada limitaram a ação do BC, gerando dúvidas sobre a duração e a intensidade dos próximos cortes. Já a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), por meio do economista Ulisses Ruiz de Gamboa, ponderou que o Banco Central adotou uma “postura prudente” diante dos riscos globais e da atividade econômica desacelerada.
Do lado dos trabalhadores, as críticas foram mais incisivas. Gustavo Cavarzan, economista do Dieese, em nota da Contraf-CUT, afirmou que a medida é “insuficiente para reverter” o quadro do peso das dívidas sobre as famílias.
Miguel Torres, presidente da Força Sindical, pontuou que a manutenção da taxa em patamares elevados prejudicará as campanhas salariais do primeiro semestre e não injetará o ânimo necessário para fortalecer o consumo e a geração de empregos. “Mantendo a Taxa Selic em patamares estratosféricos, o Banco Central irá prejudicar as negociações das categorias”, ressaltou.
Em consenso, as entidades do setor produtivo e laboral sinalizam que as próximas reuniões do Copom serão determinantes, cobrando reduções mais intensas para a efetiva reativação da economia nacional.


















