
Após 15 meses à frente da Secretaria de Estado da Saúde, deputado voltou ao Legislativo estadual e projeta atuação em Brasília. Entre as prioridades, estão o financiamento do SUS e os impactos da reforma tributária no Espírito Santo
O deputado estadual Tyago Hoffmann (PSB) retomou suas atividades na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) em abril deste ano, após 15 meses de atuação como secretário de Estado da Saúde. Eleito em 2022 com 32.123 votos, o economista e mestre pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) encerra um ciclo no Poder Executivo e inicia uma nova fase política com o lançamento de sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados. O objetivo central de sua movimentação rumo a Brasília é atuar na busca por um maior financiamento federal para o Sistema Único de Saúde (SUS) e garantir o fortalecimento da infraestrutura do Espírito Santo frente às mudanças trazidas pela reforma tributária.
Com mais de 15 anos de experiência como professor universitário e um longo histórico de cargos de gestão nas gestões do governador Renato Casagrande (PSB), Hoffmann já comandou pastas estratégicas como a Secretaria de Inovação e Desenvolvimento Econômico (2021-2022), a Casa Civil (2013-2014) e a Secretaria de Governo (2012-2013), além de ter sido subsecretário na Saúde em 2012. Em 2017, também geriu a Secretaria de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana de Vitória, na gestão do ex-prefeito Luciano Rezende. Atualmente, em seu primeiro mandato no Legislativo estadual, o deputado ocupa a presidência da Comissão de Finanças e integra colegiados permanentes de Educação, Ciência e Tecnologia e de Segurança.
O peso do mandato e a atuação legislativa
Questionado sobre as diferenças entre chefiar secretarias estaduais e ocupar um cargo eletivo, Hoffmann destaca o forte senso de dever para com os eleitores. “Tem um sentimento muito forte de obrigação de devolução para a sociedade”, afirma o parlamentar. Para o deputado, a confiança depositada por mais de 32 mil capixabas nas urnas exige uma retribuição por meio de ações concretas e trabalho direcionado ao Estado e aos municípios que representa.
“Ser secretário de Estado é uma honra, mas também é uma grande responsabilidade. Mas ser parlamentar, ter um mandato, é diferente”, afirma o deputado, destacando o peso da representatividade.
“Tem um sentimento muito forte de obrigação de devolução para a sociedade. (…) Muita gente votou em mim sem sequer eu conhecer essas pessoas. Então, esse sentimento traz uma gratidão muito grande, traz o orgulho de ter feito um trabalho bem feito que gerou esse resultado, mas traz também essa responsabilidade”.
Na Ales, o parlamentar divide sua atuação em duas frentes principais: a proposição de leis e a intermediação de demandas municipais junto ao Governo do Estado. Entre os marcos de seu mandato está a aprovação da política estadual para pessoas com altas habilidades e superdotação. O projeto foi construído ao longo de um ano, após audiências públicas com especialistas e famílias. O parlamentar também tem priorizado entidades como Apaes e Pestalozzis, reforçando a busca por atender “aquelas pessoas que as políticas públicas ainda não alcançam, ou alcançam ainda de uma maneira não adequada”.
Desafios na Saúde e o gerenciamento de crises
A passagem pela Sesa colocou Hoffmann no comando de um orçamento de quase 6 bilhões de reais, 10.500 servidores e 40 unidades próprias e filantrópicas. Questionado sobre os momentos mais complexos, ele aponta a crise de contaminação no Hospital Santa Rita, referência em oncologia, e, principalmente, a ameaça de fechamento da maternidade do Hospital Rio Doce, em Linhares.
A diretoria anterior do hospital comunicou o encerramento das atividades da maternidade de alto risco, que atende a centenas de crianças da região, em um prazo de 48 a 72 horas. A Sesa precisou intervir imediatamente, garantindo escalas médicas com apoio de instituições como a Santa Casa de Vitória e o Hospital São José de Colatina. “Eu cheguei a falar: o governo Renato Casagrande e Ricardo Ferraço não fecha hospitais, a gente abre hospitais”, relata Hoffmann. A crise foi contornada em parceria com o Ministério Público, culminando na transferência da gestão do hospital para a Santa Casa de Misericórdia.
Para otimizar o sistema, a gestão focou na descentralização. Consultas, exames e cirurgias de média e alta complexidade, antes concentrados em poucos polos, foram levados para mais perto dos cidadãos. O serviço de oftalmologia, que antes exigia viagens de pacientes de Linhares até Baixo Guandu, foi expandido. Mais de 6 mil cirurgias oftalmológicas já foram realizadas na região de Linhares, e a entrega de óculos pelo Estado passou a ocorrer no próprio município do paciente. Segundo o ex-secretário, a mudança ocorreu com custo zero adicional aos cofres públicos, operando por meio de redistribuição de contratos e exigência de atendimento itinerante.
O mesmo modelo foi aplicado à expansão de exames de colonoscopia e endoscopia no sul do Estado e à implantação da teleconsulta nos 78 municípios capixabas. A medida retirou quase 100 mil pessoas das estradas apenas no ano passado e permitiu o acesso a especialistas raros, como neuropediatras, localizados em outras partes do Brasil e do mundo.
“O gestor público tem que ter sensibilidade e empatia, e mesclar a visão técnica com a visão humana, porque, quando a gente pensa só tecnicamente, é muito mais barato para o Estado centralizar. Só que… e o ser humano nisso?”, questiona o deputado.
Descentralização e inovações no atendimento ao paciente
A principal diretriz adotada por Hoffmann na Sesa foi a descentralização dos serviços de média e alta complexidade, invertendo a lógica de concentrar atendimentos apenas em grandes polos. A mudança permitiu que exames e consultas fossem levados para o interior, diminuindo os desgastes físicos dos pacientes nas rodovias. Em Linhares, por exemplo, a oferta local de oftalmologia evitou que moradores precisassem viajar constantemente até Baixo Guandu para cirurgias de catarata. Apenas no município, foram realizadas mais de 6 mil cirurgias oftalmológicas no período. O mesmo formato itinerante foi adotado na distribuição anual de cerca de 80 mil óculos de grau, que passou a contar com consultas, exames, provas de armação e entregas feitas nas próprias cidades dos cidadãos atendidos.
A implantação do programa de teleconsultas nos 78 municípios capixabas foi outra medida de grande impacto na gestão. Segundo o deputado, a ferramenta evitou que cerca de 100 mil pessoas realizassem viagens no último ano e facilitou o acesso a especialistas escassos na rede pública, como neuropediatras, conectando os pacientes a profissionais localizados em diversos estados do Brasil e no exterior.
Paralelamente, na região Sul do estado, os serviços de colonoscopia e endoscopia foram ampliados para cidades menores, como Apiacá, Muniz Freire e Itapemirim. Hoffmann ressalta que essas expansões não geraram custos adicionais aos cofres públicos, sendo viabilizadas apenas por meio de readequações contratuais estratégicas e criatividade na gestão pública.
Caminho para Brasília
Com a experiência acumulada ao longo de sua trajetória pública, Tyago Hoffmann apresenta seu nome como pré-candidato a deputado federal, etapa que ainda aguarda aprovação nas convenções partidárias. A decisão de buscar uma cadeira na Câmara dos Deputados está ancorada em sua vivência técnica e política. Ele relembra que já ocupou o cargo de secretário de Estado por cinco vezes, distribuídas em quatro pastas diferentes, o que inclui passagens pelas secretarias de Governo, Casa Civil, Inovação e Saúde. “Eu estou preparado para representar o Espírito Santo no Brasil; me sinto muito preparado para isso”, avalia o parlamentar, reforçando que a bagagem na gestão do Executivo e no Legislativo estadual lhe fornece a base necessária para enfrentar os debates nacionais.
Entre as principais batalhas que pretende travar no Congresso Nacional, Hoffmann destaca a urgência em reestruturar o modelo de financiamento do Sistema Único de Saúde. O pré-candidato alerta para o esgotamento da capacidade financeira de estados e municípios, que estariam chegando ao limite do que podem comportar. Para ilustrar o desequilíbrio e a sobrecarga regional, ele resgata o cenário do início da primeira gestão do atual governador, em 2011, quando o governo federal era responsável por 70% do custeio da saúde pública no Espírito Santo, restando 30% aos cofres estaduais.
“No ano passado, quando eu terminei o meu primeiro e único ano à frente da Secretaria de Saúde, nós fechamos a minha prestação de contas com 73% dos recursos sendo estaduais e 27% federais. Houve uma inversão de quem financia a saúde no Brasil”, detalha o deputado, alertando que essa é uma realidade compartilhada por todos os entes federativos.
Diante desse quadro, ele enfatiza a necessidade de usar o mandato em Brasília para atuar de forma presente e cobrar que a União cumpra o seu papel constitucional de garantir o financiamento adequado da saúde pública brasileira.
Rejeição à polarização ideológica
Ao projetar sua postura na Câmara dos Deputados, Hoffmann adota uma posição categórica em relação ao atual clima de acirramento no debate nacional. O parlamentar descarta qualquer tipo de envolvimento em disputas que não apresentem resultados práticos para a melhoria da qualidade de vida da população.
“Não contem comigo para essa briga insana ideológica que está acontecendo no país. Não estou interessado em ser deputado federal para participar de briga que não coloca sequer um prato de arroz e feijão na mesa de nenhum capixaba e de nenhum brasileiro”, diz. Hoffmann lamenta que o Brasil tenha se perdido em discussões que não geram desenvolvimento e reafirma que seu foco será em pautas de produção.
Com a promessa de atuar de forma republicana e dialogar com quem quer que o povo brasileiro escolha para a Presidência da República, o pré-candidato reitera que sua prioridade máxima será a defesa dos interesses do Espírito Santo, movido pela necessidade de retribuição. “Eu conheço esse povo trabalhador, ordeiro, que gosta de trabalhar; então eu me insiro nisso, eu gosto de trabalhar, eu gosto da vida pública. E se eu tiver a oportunidade é isso que eu vou levar na minha cabeça e no meu coração. Esse sentimento de gratidão e de necessidade de retribuir toda a generosidade que o povo do Espírito Santo tem comigo”, conclui.
Confira a entrevista com Hoffmann abaixo, na íntegra:
Em Dia ES Entrevista: TYAGO HOFFMANN
1. Deputado, o senhor chegou à Assembleia Legislativa após uma longa trajetória em cargos de gestão no Executivo, além de sua trajetória na carreira acadêmica. O que mais o surpreendeu na rotina e nas responsabilidades de um mandato parlamentar?
TYAGO HOFFMANN: Nessas secretarias por onde passei, sempre tive muitas responsabilidades, né? Ser secretário de Estado é uma honra, mas também é uma grande responsabilidade. Mas ser parlamentar, ter um mandato, é diferente. Tem um sentimento muito forte de obrigação de devolução para a sociedade, né? Não que isso não exista como secretário, mas como deputado isso é muito mais forte. Porque veja, eu tive 32.123 votos. São 32.123 pessoas que foram lá numa urna eletrônica, digitaram o meu número, viram o meu rosto, confirmaram e acreditam no meu trabalho. E, quando você começa a trabalhar, lógico que eu não sou deputado só dessas pessoas.
Mas há um sentimento de que é preciso retribuir a confiança que essas pessoas depositaram na gente. É uma responsabilidade muito grande. Muita gente votou em mim sem sequer eu conhecer essas pessoas. Então, esse sentimento traz uma gratidão muito grande, traz o orgulho de ter feito um trabalho bem feito que gerou esse resultado, mas traz também essa responsabilidade, esse sentimento de que eu tenho que fazer alguma coisa por essas pessoas, eu tenho que fazer alguma coisa pelo meu Estado, pelas cidades que eu represento.
2. Ao fim de seu primeiro mandato, quais pautas ou projetos o senhor considera terem melhor simbolizado a sua atuação na política?
TH: Olha, quando nós entramos no mandato parlamentar, eu acho que tem dois tipos de atuação muito fortes. O primeiro é o papel do legislador mesmo. Como parlamentar, deputado, nós somos legisladores. Então, esse é um papel que a gente cumpre. E nós apresentamos nesse período diversos projetos de lei muito relevantes. Por exemplo, agora recentemente, nós aprovamos uma política, a construção de uma política estadual — que eu espero que seja uma lei sancionada pelo nosso governador Ricardo Ferraço, e tenho certeza que será — para as pessoas com altas habilidades e superdotação. Que são pessoas que eram, até então, invisíveis à gestão pública. E são pessoas que às vezes estão sofrendo bullying nas escolas. Então, aquilo que parece uma bênção, se não for bem tratado, pode se tornar uma maldição.
Então, nós fizemos uma audiência pública muito grande e, a partir dessa audiência pública, trouxemos especialistas de São Paulo para falar; falaram de maneira virtual conosco. E aí, a partir dessa audiência pública, junto com as famílias que têm uma representação, nós construímos um projeto de lei. Passamos um ano com esse projeto sendo construído e apresentamos esse projeto, que foi aprovado na Assembleia. Então, esse é um dos papéis. O outro é o papel de representar também os municípios. Então, sempre que a gente está na atividade parlamentar, a gente é procurado pelos prefeitos, pelos vereadores, pelas lideranças, em busca de alguma realização que o poder executivo precisa fazer. Então, essa representação eu também considero muito importante. Ou seja, o parlamentar é uma espécie de intermediário, de interlocutor; ele é uma espécie de voz dessa sociedade, que às vezes não consegue chegar ao governador do Estado, a um secretário de Estado.
Então, nesse período também nós fizemos muitos trabalhos nessa direção, com a Secretaria de Saúde, de Educação, com o DER, que trabalha a parte de estradas, de construções. Então, esse trabalho também foi um trabalho que ocupou muito da nossa atividade parlamentar. Nós cuidamos das APAEs, das Pestalozzis, das pessoas com deficiências físicas e mentais. Sempre trabalhamos essa pauta da educação, da educação especial, e mais recentemente também entrou muito forte na minha vida a pauta da saúde. Mas sempre olhando — e eu destaquei isso quando nós aprovamos essa lei das pessoas das altas habilidades — para aquelas pessoas que as políticas públicas ainda não alcançaram, ou alcançam ainda de uma maneira não adequada. A gente fala num discurso sempre assim: é a política pública que alcança as pessoas que são invisíveis aos olhos do Estado. Então, o olhar para a APAE, para os direitos da pessoa com deficiência, sempre foi muito forte. As pessoas também com paralisia cerebral. Isso pautou a minha atuação como parlamentar e depois também como secretário de Saúde.
3. O senhor liderou a SESA com um orçamento recorde e tem a sua gestão avaliada como um sucesso. A Saúde costuma ser uma das áreas mais cobradas pela população e uma das mais complexas da administração pública. Qual foi o momento mais desafiador da sua passagem pela secretaria e como ele foi enfrentado?
TH: Nossa, essa pergunta é difícil, porque foram muitos desafios grandes e importantes. Aliás, tudo na Secretaria de Saúde é muito grande. E a principal razão por isso é porque sempre envolve vidas. Mas eu acho que nós tivemos dois grandes desafios, e eu acho que o que foi o maior de todos foi a crise que nós tivemos aqui em Linhares, no Hospital Rio Doce. Eu acho que esse foi um desafio muito grande. Nós fomos pegos de surpresa da noite para o dia com uma comunicação da antiga diretoria do hospital sobre o fechamento da maternidade. E é bom lembrar que, hoje, em função das normas de vigilância, das normas do Ministério da Saúde, da Anvisa, sobre maternidade, nós praticamente não temos mais maternidades nas cidades pequenas. Porque, para você sustentar uma maternidade, é muito caro pelas exigências dessas normas da Anvisa e do Ministério. Então, em função disso, o Hospital Rio Doce se tornou uma referência em maternidade de alto risco, partos de alto risco, para toda uma região; não é só para Linhares.
Eu acho que isso é importante a gente falar. São centenas de crianças ali que nascem praticamente todos os dias e nós nos deparamos com um ofício avisando assim: “Olha, a partir das próximas 48 horas, 72 horas, nós vamos fechar a maternidade”. E ali nós tivemos que assumir uma responsabilidade muito grande de garantir as escalas médicas. Contamos com o apoio dos demais hospitais filantrópicos. Eu quero aqui destacar o papel da Santa Casa de Vitória, o papel do Hospital São José de Colatina. E nós colocamos a nossa equipe para trabalhar. Eu estive pessoalmente duas vezes no hospital nesse período, mas os meus subsecretários estiveram aqui permanentemente, garantindo e conferindo de próprio punho as escalas e a presença dos médicos para que nós não tivéssemos nenhum fechamento. E eu cheguei a falar: o governo Renato Casagrande e Ricardo Ferraço não fecha hospitais, a gente abre hospitais. Essa foi uma frase que marcou um pouco esse momento e de fato aconteceu. E de fato é uma realidade. Nós estamos abrindo hospitais e não fechando hospitais. E não poderíamos deixar um hospital com a história do Hospital Rio Doce, com a importância do Hospital Rio Doce, passar por esse momento. Então superamos a crise e depois também, em parceria com o Ministério Público — eu quero aqui destacar o papel do Ministério Público nesse momento, que também foi um parceiro —, nós conseguimos fazer uma transição segura da gestão anterior da Fundação, que geria o Hospital Rio Doce, para a Santa Casa de Misericórdia, que assumiu o hospital e estabilizou o hospital. Longe de estar perfeito, porque não é do dia para a noite, não é porque uma direção saiu e outra assumiu que a coisa muda da noite para o dia. Ali tem um endividamento muito grande, ali existiam vícios antigos naquele hospital, que, com o tempo, a Santa Casa vai mudando essa realidade, melhorando ainda mais a qualidade da assistência do Hospital Rio Doce.
A crise também da contaminação do Hospital Santa Rita, que é a nossa referência em Oncologia da Grande Vitória, foi um momento também que exigiu da gente uma presença e uma atuação rápida e segura tecnicamente, e a gente conseguiu também identificar o que estava acontecendo no Hospital Santa Rita e superar aquele momento também. E o desafio do dia a dia de você tocar uma pasta com um orçamento de quase 6 bilhões de reais, com 10.500 servidores, com 40 unidades ambulatoriais e hospitalares próprias e filantrópicas, enfim, aí tem um desafio de fazer a gestão. A Secretaria de Saúde, por si só, ela é maior do que algumas cidades do Espírito Santo. Nós fizemos ano passado 173 mil cirurgias eletivas, oferecemos mais de um milhão de consultas, mais de 700 mil exames especializados; enfim, teve aí um desafio de fazer essa gestão no dia a dia, que não é fácil.
4. Depois de comandar uma das maiores estruturas do governo estadual, qual lição de gestão pública o senhor leva dessa experiência e acredita que continuará influenciando sua atuação política?
TH: A primeira delas, que é uma coisa que a gente tem que sempre procurar fazer quando a gente está na gestão, é a gente pensar fora da caixa, pensar fora do quadrado, porque na gestão pública a gente tem ali uma maneira de fazer as coisas sempre do mesmo jeito. E na Secretaria de Saúde, a gente fazendo as coisas sempre do mesmo jeito, nós já estávamos alcançando bons resultados, mas quando a gente mudou um pouquinho o jeito em algumas coisas, os resultados ficaram melhores. Por exemplo, eu acho que é bom destacar isso: nós tínhamos uma cultura de centralização de serviços de média e alta complexidade, e nós invertemos essa lógica para uma lógica de descentralização de serviços de média e alta complexidade. Por exemplo, nós temos quatro regiões de saúde; Linhares, por exemplo, que é onde nós estamos agora, é um município que pertence à região central de saúde. São aqui 14, 15 municípios que compõem essa região de saúde, e aqui nós só tínhamos um serviço de oftalmologia estadual que ficava no município de Baixo Guandu. Então você imagina para o morador de Linhares que precisa fazer uma cirurgia de catarata: ele ia a Baixo Guandu, fazia a consulta e o exame, voltava para casa; aí a cirurgia dele era marcada, aí ele ia a Baixo Guandu, num outro dia fazia a cirurgia de um dos olhos, voltava para casa; aí ele ia no outro dia, fazia a cirurgia do outro olho, voltava para casa; e daí a dois, três dias ele ia lá de novo fazer a revisão da cirurgia. E a maioria dessas pessoas, aliás, a maioria não, a totalidade dessas pessoas, são pessoas com uma baixa condição financeira.
Então são pessoas que dependem, por exemplo, do transporte da prefeitura. Então esse carro da prefeitura saía de manhã cedo, porque o primeiro paciente é operado logo de manhã cedo, e só voltava no final da tarde. E essas pessoas muitas vezes não têm sequer uma condição de se alimentar no município onde elas estão. Então eu acho que… E o que nós fizemos? Nós trouxemos a oftalmologia para Linhares. Então, ao invés de termos só em Baixo Guandu, agora nós temos Baixo Guandu, Linhares, e estamos abrindo em Colatina. Então nós já fizemos mais de 6 mil cirurgias aqui em Linhares. Então nós não estamos atendendo só Linhares, porque para Rio Bananal, por exemplo, é muito mais perto vir a Linhares do que a Baixo Guandu.
Então Linhares atende agora para nós uma região, uma microrregião; Baixo Guandu continua atendendo outra microrregião, e Colatina vai atender uma outra microrregião. E com isso a gente consegue levar o serviço para mais perto das pessoas. E essa é uma realidade que nós fizemos aqui; fizemos mais ao norte e fizemos mais ao sul também, levando consultas, exames e cirurgias para perto da casa das pessoas.
Eu acho que entra uma coisa que é importante, que eu acho que o gestor público tem que ter sensibilidade e empatia, e mesclar a visão técnica com a visão humana, porque, quando a gente pensa só tecnicamente, é muito mais barato para o Estado, faz mais sentido lógico você centralizar. Só que… e o ser humano nisso? E as pessoas? E a vida das pessoas? E uma pessoa que precisa, sem dinheiro, fazer esse deslocamento? Então, quando a gente descentraliza… O risco que eles correm nas estradas. O risco das estradas. Por exemplo, na teleconsulta, nós não tínhamos teleconsulta. Sim. Depois que eu entrei, o governador Casagrande me determinou: “Vamos resolver esse problema das consultas, Tiago”. E nós implantamos o serviço da teleconsulta. E aí, o serviço da teleconsulta hoje está nos 78 municípios do Estado, e nós tiramos quase 100 mil pessoas no ano passado das estradas. Quase 100 mil pessoas deixaram de fazer viagens de centenas de quilômetros. Você consegue, com a teleconsulta, por exemplo, resolver um outro problema, que é trazer mais profissionais de saúde, profissionais médicos, em especialidades que são raras. Sim, neuropediatria.
Nós temos um Estado com 4 milhões de habitantes, aproximadamente. E nós temos, no Estado, cadastrados, cerca de 10 a 15 neuropediatras para todo o Estado. Se você quiser agora uma consulta particular com um neuropediatra, dificilmente você vai achar ela disponível através do plano de saúde. Você não vai achar. E se você quiser se consultar, você vai pagar aí uma consulta de R$ 1.000, R$ 1.200, R$ 1.500, dependendo do profissional, e você vai conseguir essa consulta, talvez, no fim desse ano. Você vai demorar 5, 6 meses para conseguir. Então, quando você faz um modelo com a teleconsulta, o profissional médico que está atendendo, ele pode estar em qualquer parte do Brasil, ou até em qualquer parte do mundo. Se ele falar português, não tem problema. Nós, por exemplo, simulamos: sempre que a gente inaugurava uma sala de teleconsulta no município, a gente fazia uma simulação. Nós encontramos profissionais que estavam na Espanha, profissionais que estavam nos Estados Unidos, em outras partes da Europa, em outras partes do mundo, e profissionais que estavam espalhados por todo o Brasil: de Belo Horizonte, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Santa Catarina, do Recife, de Porto Velho. A
saúde tem uma urgência. As pessoas que estão doentes, que estão necessitadas de uma consulta, de um exame, têm urgência. Nós abrimos, pelo menos nesse período que eu estive lá, 15 serviços, por exemplo, de colonoscopia e endoscopia, então nós abrimos, no sul do Estado. Você imagina o que é… o preparo do exame de colonoscopia é muito complicado. Agora, você imagina você fazer o preparo do exame de colonoscopia e ter que viajar centenas de quilômetros para fazer o exame. É desumano. Essa pessoa está desidratada, essa pessoa está… Ela tem que fazer o exame próximo à casa dela. No sul do Estado, por exemplo, nós abrimos cinco serviços diferentes de colonoscopia e endoscopia: em Apiacá, em Muniz Freire, abrimos um segundo serviço em Cachoeiro de Itapemirim e em outros municípios. A gente foi abrindo no litoral, em Itapemirim, para que a gente pudesse aproximar esses serviços das pessoas. E sabe quanto isso custou a mais para o Estado? Zero. Nós pegamos o mesmo contrato e redistribuímos. A mesma coisa. Então, assim, foi uma questão de criatividade; a mesma coisa com a parte da oftalmologia, dos óculos. O Estado distribui óculos. Nós vamos distribuir esse ano cerca de 80 mil óculos por todo o Estado. E como é que isso acontecia? Vamos imaginar essa região aqui onde nós estamos, aqui em Linhares. A sede da superintendência fica em Colatina. Então, a pessoa ia até Baixo Guandu — que eu falei aqui antes, que era nossa referência da oftalmologia única —, então a pessoa ia lá em Baixo Guandu, fazia consulta e dizia: “Ah, não preciso operar, não preciso de óculos”, então voltava para Linhares. “Ah, tá, então precisa do óculos”, pegava a receita do óculos, tinha que ir lá em Colatina, para quê? Para fazer a prova da armação, aí voltava para casa, aí Colatina ia preparar o óculos, depois voltava em Colatina de novo para buscar o óculos. Agora não, a gente faz 100% das consultas em todos os 78 municípios e fazemos 100% das entregas de óculos no município do cidadão.
Ontem mesmo, em Pancas, foram entregues quase 200 óculos; entregamos recentemente com o governo de Ricardo Ferraço cerca de 1.200 óculos, e vamos entregar, na verdade, 5 mil agora, nas próximas semanas, a primeira entrega de 1.600 óculos, aqui em Linhares. As pessoas fizeram a consulta aqui, fizeram o exame aqui, fizeram a prova do óculos aqui e vão receber o óculos aqui. Sabe quanto isso custou a mais para o Estado? Zero. O mesmo contrato, as mesmas empresas, os fornecedores… Só que a gente virou para a empresa e falou assim: “Olha, agora mudou. A matriz fica só aqui em Colatina e você vai fazer toda a região de forma itinerante”.
5. Depois de ocupar cargos estratégicos no Executivo e passar pela Assembleia Legislativa, agora o senhor se apresenta como pré-candidato a deputado federal. Por que o senhor entende que este é o momento de buscar uma cadeira na Câmara dos Deputados?
TH: Eu estou preparado para representar o Espírito Santo no Brasil; me sinto muito preparado para isso. Por que eu me sinto muito preparado para isso? Porque eu já acumulo uma experiência; eu fui secretário de Estado cinco vezes, em quatro pastas diferentes. Eu fui secretário de governo duas vezes, fui chefe da Casa Civil, fui secretário de Inovação, Educação Profissional e Desenvolvimento Econômico e agora, por último, secretário de Saúde. Então eu tenho uma boa experiência na gestão pública. E sou deputado estadual, então também tenho uma boa experiência no Legislativo. Me sinto muito preparado para esse passo de representar o Espírito Santo em Brasília.
Então estou colocando meu nome, em primeiro lugar, à exposição do partido; nós ainda não temos as convenções partidárias, meu nome precisa ser aprovado nas convenções partidárias. Depois, dando tudo certo, eu vou colocar o meu nome à disposição da população do Espírito Santo para representar o nosso povo em Brasília. E por que ir para Brasília? Porque tem algumas batalhas que precisam ser tratadas em Brasília e eu me sinto pronto para elas. Por exemplo, ao passar pela Secretaria de Saúde, eu vi a necessidade de nós cobrarmos mais firmemente o governo federal em relação ao financiamento da saúde. No início da primeira gestão Casagrande, em 2011, 70% dos recursos que financiavam a saúde pública do Espírito Santo eram federais e 30% eram estaduais. No ano passado, quando eu terminei o meu primeiro e único ano à frente da Secretaria de Saúde, nós fechamos a minha prestação de contas com 73% dos recursos sendo estaduais e 27% federais. Houve uma inversão de quem financia a saúde no Brasil.
E essa realidade do Espírito Santo é uma realidade de todos os estados brasileiros. E os estados e os municípios estão chegando no limite daquilo que eles podem comportar de financiamento da saúde pública. Então nós precisamos — e, modéstia à parte, eu tenho esse conhecimento do que está acontecendo na saúde pública —, nós precisamos ter presença e cobrar o governo federal para que cubra uma das suas funções da saúde pública brasileira, que é financiá-la. Então essa é uma das batalhas importantes que nós vamos trabalhar em Brasília.
Fora isso, tem a batalha da infraestrutura do Espírito Santo. A reforma tributária traz alguns desafios para o Espírito Santo, dentre eles o desafio de manter e atrair novos investimentos para o Estado. Então nós precisamos reforçar a nossa estrutura portuária, rodoviária, aeroportuária. E eu também conheço essa realidade do Estado. Conheço os 78 municípios do Estado, conheço boa parte dos distritos do Estado. Conheço as potencialidades da nossa terra, conheço as carências da nossa terra. Então estou pronto para chegar em Brasília e travar batalhas que são importantes para o nosso Estado e para o nosso povo.
6. O debate nacional tem sido marcado por um forte acirramento das discussões políticas. Como o senhor pretende se posicionar nesse cenário e quais temas considera que devem estar no centro da discussão para o Espírito Santo, em Brasília?
TH: Não contem comigo para essa briga insana ideológica que está acontecendo no país. Não estou interessado em ser deputado federal para participar de briga que não coloca sequer um prato de arroz e feijão na mesa de nenhum capixaba e de nenhum brasileiro. Nós estamos, infelizmente, no Brasil… a gente se perdeu em uma discussão que não gera desenvolvimento para o nosso país, não gera desenvolvimento para o nosso Estado. Estou interessado em ser deputado federal; quero ser deputado federal para ir para Brasília discutir pautas relevantes para o Estado e de produção. Falei de duas aqui muito importantes, que é a nossa infraestrutura e a nossa saúde. Mas nós temos um tema importante também na educação e na qualificação profissional. E a minha passagem pela Secretaria de Inovação, Tecnologia, Formação Profissional e Desenvolvimento Econômico também me deu isso: que é conhecer bastante a educação profissional, a educação de nível superior e trabalhar por essa pauta fortemente também, da qualificação profissional.
A gente precisa ter mão de obra qualificada, pessoas qualificadas de nível técnico, nível superior, para que nós possamos, dentro da infraestrutura, gerar empregos de qualidade para o povo capixaba. Então eu quero ir para Brasília para defender os interesses do nosso povo, defender os interesses do nosso Estado. Não vou participar de debates ideológicos, vou lidar com qualquer um que seja eleito, que o povo brasileiro escolha para ser o Presidente da República, mas vou estar sempre colocando à frente os interesses do Espírito Santo.
Eu conheço hoje todos os municípios do nosso Estado, 100%. Conheço as potencialidades, conheço os municípios com potencial mais agrícola, aqueles com potencial mais industrial, aqueles com potencial maior para o turismo. Conheço essa realidade do Estado, conheço o povo capixaba, esse povo trabalhador, ordeiro, que gosta de trabalhar; então eu me insiro nisso, eu gosto de trabalhar, eu gosto da vida pública. E se eu tiver a oportunidade, se Deus e o povo capixaba me derem essa oportunidade de estar em Brasília, é isso que eu vou levar na minha cabeça e no meu coração. Esse sentimento de gratidão e de necessidade de retribuir toda a generosidade que o povo do Espírito Santo tem comigo. O povo capixaba, esse povo trabalhador, ordeiro, que gosta de trabalhar, então eu me insiro nisso, eu gosto de trabalhar, eu gosto da vida pública. E se eu tiver a oportunidade, se Deus e o povo capixaba me derem essa oportunidade de estar em Brasília, é isso que eu vou levar na minha cabeça e no meu coração. Esse sentimento de gratidão e de necessidade de retribuir toda a generosidade que o povo do Espírito Santo tem comigo.
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