Cerca de 9,8 milhões de moradores da região Sudeste, área que engloba o Espírito Santo, deixaram de passar fome no período compreendido entre 2022 e 2024. A reversão do quadro ocorre em decorrência do fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), estrutura governamental retomada em 2023. O levantamento, elaborado a partir do cruzamento de dados da Rede Penssan (2022) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2024, indica ainda que outras 29,7 milhões de pessoas superaram algum nível de insegurança alimentar e alcançaram a situação de segurança alimentar e nutricional plena na região, impulsionadas pela integração de políticas públicas e pelo aumento do número de prefeituras participantes dos programas sociais.
Os números da recuperação alimentar no Sudeste
A medição foi realizada com base na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), ferramenta que afere o acesso das famílias aos alimentos. De acordo com a pesquisa, os indicadores de vulnerabilidade no Sudeste apresentaram as seguintes reduções entre 2022 e 2024:
- Insegurança alimentar grave (fome): caiu de 13,1% para 2,3%.
- Insegurança alimentar moderada (redução na qualidade da alimentação): recuou de 14,3% para 3,2%.
- Insegurança alimentar leve (preocupação com a falta de alimentos no futuro): diminuiu de 27,2% para 14,1%.
- Segurança alimentar e nutricional: o percentual de domicílios nesta condição subiu de 45,4% para 80,3%.
O impacto da integração de políticas públicas
A Secretaria Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome (SECF), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), aponta que o recuo nos índices de fome reflete o aprimoramento do Sisan, sistema que completará 20 anos de existência em 2026. O mecanismo integra ações de diversos setores e níveis governamentais, com a participação da sociedade civil, para assegurar o direito humano à alimentação adequada.
A secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do MDS, Valéria Burity, destaca que os números atuais evidenciam o impacto direto da articulação entre as diferentes políticas públicas. O sistema havia passado por um processo de desmonte antes de sua reestruturação iniciada em 2023.
“Em 2023, chegamos ao governo com a missão de tirar o país do Mapa da Fome novamente. Em 2022, havia 33,1 milhões de pessoas em situação de fome no país e em tempo recorde conseguimos reverter esse quadro. Em 2024, o país atingiu a menor taxa da história para a insegurança alimentar grave, levamos dois anos para reconquistar uma marca que, no passado, levou dez anos (2003-2013) de construção de políticas públicas para ser alcançada”, afirmou a secretária.
A saída do Mapa da Fome ocorre quando, segundo os parâmetros da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), menos de 2,5% da população de um país encontra-se em situação de subalimentação.
Expansão do sistema nos municípios e infraestrutura regional
O processo de reestruturação do Sisan resultou no aumento da adesão de administrações municipais em todo o território nacional. Segundo os dados da SECF e do MDS, o número de cidades participantes passou de 536, no final de 2022, para 2.297 em junho de 2026. Atualmente, todos os estados brasileiros e o Distrito Federal integram a rede.
Na região Sudeste, o crescimento também foi expressivo. Até abril de 2026, 337 municípios da região já haviam formalizado a adesão ao Sisan, um volume cinco vezes maior em comparação a 2022, ano em que apenas 67 cidades faziam parte da estrutura.
A Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), detalha o alcance dessas políticas no Sudeste em 2024:
- Estruturas de gestão: 48% dos municípios possuíam Conselhos Municipais de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), 15% contavam com Câmaras Intersetoriais (Caisan) e 29% dispunham de Leis Municipais específicas sobre o tema.
- Ações e compras públicas: 78% das prefeituras compram alimentos da agricultura familiar para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); 77% operam a concessão de benefícios eventuais a famílias vulneráveis; 71% desenvolvem ações de promoção da alimentação adequada; e 39% participam do
- Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
- Equipamentos de segurança alimentar: a região contabilizava 215 restaurantes populares, 203 cozinhas comunitárias, 162 bancos de alimentos e 95 centrais de recebimento da agricultura familiar.
Como funciona a estrutura de proteção
O funcionamento do Sisan está organizado em três pilares centrais: participação social, coordenação governamental e pactuação federativa. A descentralização ocorre por meio da adesão de estados e municípios, que devem instituir instâncias próprias, alinhadas às diretrizes nacionais.
No âmbito social, a Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CNSAN) define as prioridades de ação, enquanto o Consea sistematiza as deliberações e formula recomendações para a criação de políticas públicas.
Na esfera governamental, a coordenação fica a cargo da Caisan, estrutura composta atualmente por 24 ministérios e sob a liderança do MDS. O órgão é responsável por elaborar, implementar e monitorar o Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Plansan) e o Plano Brasil Sem Fome.
O sistema age como um guarda-chuva integrador de diversas iniciativas governamentais, coordenando o alcance de programas sociais e econômicos, entre eles o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), o PAA, o PNAE e o Programa Cisternas.


















