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Ameaça de Trump ao Pix vira munição para Lula e apelido ‘Tariflávio’ domina as redes sociais

02 jun 2026 - 17:10

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Medida do governo Donald Trump contra produtos brasileiros e o sistema Pix acirra a disputa entre aliados de Lula e a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro visando as eleições de outubro
Ameaça de taxação dos Estados Unidos gera embate político e termo Tariflávio domina as redes sociais. Foto: Daniel Ramalho / AFP

A proposta do governo dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros deflagrou uma intensa crise política e uma forte mobilização digital nesta terça-feira (2). Após a publicação de um relatório americano que aponta práticas comerciais desleais do Brasil e mira diretamente o sistema Pix, aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) impulsionaram na plataforma X o termo “Tariflávio”. A estratégia busca associar as sanções econômicas à recente visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Casa Branca, em um embate que transformou o debate sobre comércio exterior em pauta eleitoral.

Ofensiva americana e o alvo no Pix
A medida dos Estados Unidos baseia-se na conclusão de uma investigação oficial do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). O documento acusa o Brasil de adotar práticas consideradas irrazoáveis em áreas como comércio digital, propriedade intelectual, tarifas preferenciais e meios de pagamento.

Embora o relatório do USTR não cite o nome de Flávio Bolsonaro, o sistema Pix aparece no centro das justificativas americanas. Para a administração de Donald Trump, a ferramenta operada pelo Banco Central do Brasil possui uma vantagem indevida sobre empresas privadas de pagamento dos Estados Unidos. Os americanos argumentam que a gratuidade para pessoas físicas, a ampla adesão bancária e a posição central do Pix nos aplicativos financeiros prejudicam a concorrência norte-americana.

A ameaça de taxação ocorre na esteira de outros movimentos recentes do governo Trump, como a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas, e foi anunciada logo após agendas do clã Bolsonaro no país norte-americano.

Mobilização governista na internet
A associação entre a viagem do senador ao exterior e a proposta de tarifaço gerou milhares de publicações na internet sob o apelido de Tariflávio. A narrativa central adotada nas redes é a defesa da soberania financeira do Brasil, acompanhada de expressões como “O PIX É NOSSO”, “Bolsonaros inimigos do Brasil” e “Flávio Taxadinha”.

A base do governo federal tenta contrastar o cenário atual com a reunião ocorrida no início de maio entre Lula e Trump, ocasião em que as partes haviam estabelecido o prazo de um mês para negociar tarifas anunciadas anteriormente. Segundo membros do governo brasileiro, a intenção agora é manter as negociações com os EUA para evitar a imposição da taxa de 25%, ao mesmo tempo em que se capitaliza politicamente sobre o desgaste do senador do PL, apontado como o principal adversário de Lula nas eleições de outubro.

Diversas figuras políticas endossaram o movimento online. O ex-presidente da Embratur e ex-deputado Marcelo Freixo (PT) afirmou que o grupo político do senador atua contra o povo em favor de interesses estrangeiros. “O TARIFLÁVIO acabaria com o PIX para agradar Trump, assim como prometeu entregar as terras raras. Só que o nosso presidente é Lula e o PIX É NOSSO, e não deixará de ser”, publicou. Segundo Freixo, é a primeira vez que um candidato à Presidência se coloca tão abertamente a favor de uma nação estrangeira.

O secretário nacional de Comunicação do PT, Éden Valadares, também se manifestou na plataforma X, declarando que a sugestão de taxação tem nome: “Tarifaço, Flávio, Tariflávio”. Valadares escreveu que Lula foi aos EUA defender o Brasil, enquanto o filho de Jair Bolsonaro teria ido defender a própria família e trair o país.

Na mesma linha, o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira (PT), acusou os filhos do ex-presidente de pedir ajuda a Trump para sabotar o país, com o objetivo de libertar Jair Bolsonaro e vingar o que chamou de tentativa de golpe frustrada. Já o deputado federal Carlos Zarattini (PL-SP) declarou que o Tariflávio foi estimulado pela articulação da família Bolsonaro nos EUA, ressaltando que a medida atinge a economia nacional, os trabalhadores e os empregos dependentes das exportações, e não o presidente Lula.

Defesa do senador e acusações contra Lula
Em meio à repercussão, Flávio Bolsonaro negou ter solicitado qualquer retaliação econômica ao Brasil. Durante agenda em Belo Horizonte, o senador afirmou em entrevista à rádio Itatiaia que pediu expressamente a Donald Trump para poupar o setor produtivo nacional.

“[Eu pedi] ‘por favor, não taxa as empresas brasileiras’, só que nós temos sentado hoje na cadeira de presidente alguém que simplesmente conseguiu ganhar a desconfiança do governo americano. Eles não confiam no Lula porque ele sai de lá pedindo primeiro para não combater facções criminosas”, declarou Flávio, atribuindo as sanções a uma suposta falta de credibilidade do atual governo federal perante os Estados Unidos.

Clima de tensão
A disputa ganhou contornos mais graves após um discurso de Lula em um evento na cidade de Catalão (GO), na própria terça-feira. Ao criticar Flávio Bolsonaro por supostamente estimular o governo Trump a aplicar as sanções, o presidente comparou a situação aos eventos da Inconfidência Mineira.

“São traidores. Por menos do que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado. O que merecem os traidores da pátria, que vão pedir intervenção de um país no nosso país? Pensem, pensem, meditem”, discursou Lula. O presidente cometeu um erro histórico na declaração, já que o mártir enforcado foi Tiradentes, e não o delator Silvério dos Reis.

A equipe de pré-campanha de Flávio Bolsonaro informou que pretende reagir à fala do chefe do Executivo por meio de discursos e, possivelmente, com o acionamento de medidas judiciais. Aliados do senador classificaram a declaração de Lula como grave, avaliando que as palavras incitam atos de violência contra o pré-candidato. Nos bastidores do PL, o episódio foi imediatamente associado ao atentado a faca sofrido por Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018 em Juiz de Fora (MG), executado por um agressor com histórico de militância na esquerda.

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