Nesta quinta-feira (7), os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump se reuniram na Casa Branca, em Washington (EUA), para debater relações comerciais, tarifas econômicas e o combate internacional ao crime organizado. O encontro, que teve início pouco depois do meio-dia (horário de Brasília) e se estendeu por quase três horas, foi marcado por uma alteração nos protocolos de imprensa e pelo cancelamento da entrevista coletiva prevista inicialmente.
Esta é a sexta visita oficial de Lula à sede do governo americano e o primeiro encontro bilateral com Donald Trump no cargo. A agenda foi classificada como uma “visita de trabalho”, caracterizada por um formato mais objetivo em comparação às visitas de Estado.
Quebra de protocolo e portas fechadas
A reunião reservada no Salão Oval durou cerca de uma hora e vinte minutos. De acordo com informações apuradas pela jornalista Mariana Janjácomo, da CNN Brasil, o protocolo de cobertura foi alterado a pedido da delegação brasileira. A imprensa, que inicialmente acompanharia o início da conversa, só foi autorizada a entrar no recinto ao final do encontro.
O pedido de mudança ocorreu devido a um desconforto prévio de Lula com a presença de jornalistas no começo de uma conversa com Trump em Kuala Lumpur, na Malásia, em outubro de 2025. Após a reunião a portas fechadas, os líderes seguiram diretamente para um almoço, cancelando o espaço reservado para perguntas dos repórteres.
Nas rede social Truth Social, o presidente Donald Trump manifestou-se após o almoço. O republicano referiu-se a Lula como um líder “muito dinâmico” e avaliou que a agenda correu “muito bem”. “Discutimos muitos tópicos, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. Nossos representantes estão programados para se reunir e discutir certos elementos-chave. Reuniões adicionais serão agendadas ao longo dos próximos meses, conforme necessário”, publicou Trump.
Impasses na segurança e comércio
A pauta do encontro abrangeu a investigação da seção 301, mecanismo pelo qual os EUA apuram práticas comerciais estrangeiras, que o governo Trump abriu contra o Brasil e que pode resultar em sobretaxas. Do lado americano, temas prioritários incluíram a atuação das grandes empresas de tecnologia (big techs) no Brasil e a exploração de minerais críticos e terras raras.
No âmbito da segurança pública, a comitiva brasileira buscou avançar em um acordo de combate ao crime organizado. Conforme reportado pela Agência Brasil, no mês passado os dois países já haviam anunciado uma parceria para o compartilhamento de informações alfandegárias visando combater o tráfico internacional de armas e drogas.
O tema, no entanto, esbarra em uma questão diplomática sensível. O governo Trump estuda classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O governo brasileiro tenta evitar essa designação, argumentando que o rótulo abriria brechas legais para intervenções norte-americanas em território nacional, além de aumentar o risco financeiro do país.
A posição brasileira ganhou respaldo no Legislativo dos Estados Unidos. Parlamentares democratas, liderados pelo deputado Jim McGovern, enviaram uma carta ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, criticando a possível classificação das facções. No documento, divulgado pela Folha de S.Paulo, os congressistas afirmam que a medida seria “contraproducente”, alertam para a falta de enquadramento claro na legislação antiterrorismo dos EUA e expressam preocupação com a interferência política da decisão, visto que o Brasil realizará eleições nacionais em seis meses.
Repercussão política e delegações
O encontro também mobilizou a oposição brasileira. Segundo apuração do repórter Augusto Tenório, da Folha, aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL), liderados pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro e pelo empresário Paulo Figueiredo, enviaram mensagens a conselheiros de Trump, como Jason Miller, com críticas feitas anteriormente por Lula ao presidente americano. O objetivo do grupo é desgastar politicamente o presidente petista, sobretudo na área da segurança pública. Flávio Bolsonaro chegou a compartilhar nas redes um vídeo gerado por Inteligência Artificial no qual Lula oferecia terras raras brasileiras em troca da não designação das facções como terroristas.
Para as negociações na Casa Branca, Lula esteve acompanhado de cinco ministros: Mauro Vieira (Relações Exteriores), Wellington César Lima e Silva (Justiça), Dario Durigan (Fazenda), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, integra a comitiva em Washington, mas não participou do encontro na sede do governo americano.
A equipe norte-americana contou com o vice-presidente J.D. Vance; a chefe de gabinete Susie Wiles; o secretário do Comércio, Howard Lutnick; o secretário do Tesouro, Scott Bessent; e o representante comercial Jamieson Greer.
Após as tratativas, as comitivas almoçaram um cardápio composto por salada de nabo com laranja e abacate, carne grelhada acompanhada de purê de feijão preto e pimentões, seguido de sobremesa com pêssegos caramelizados, panna cotta e sorvete de nata. A expectativa agora recai sobre as reuniões de desdobramento que as equipes técnicas de ambos os países deverão realizar nos próximos meses para consolidar os pontos discutidos.


















