O ex-deputado federal e ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem (PL-RJ), foi preso nesta segunda-feira (13) pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE), na cidade de Orlando, Flórida. Considerado foragido desde o ano passado após condenação no Supremo Tribunal Federal (STF), Ramagem foi detido em via pública por irregularidades migratórias, em uma ação motivada por trabalho de inteligência e cooperação internacional entre a Polícia Federal (PF) do Brasil e agências norte-americanas.
O nome do ex-parlamentar já consta no site do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos sob a situação de “sob custódia do ICE”, aguardando definição sobre sua permanência no país, deportação ou extradição.
A abordagem e o monitoramento
A detenção ocorreu enquanto Ramagem caminhava por uma rua em Orlando. Inicialmente, os oficiais do ICE alegaram uma infração de trânsito para solicitar a checagem de documentos. Ao apresentar um visto de turista que estava vencido desde o dia 7 de março de 2026 e um passaporte já cancelado pela Justiça brasileira, a prisão administrativa foi efetuada.
A localização exata do ex-deputado foi fruto de meses de investigação. A Polícia Federal brasileira monitorou um veículo que Ramagem utilizou para buscar sua esposa no aeroporto, descobrindo assim seu endereço na Flórida. Durante a apuração, constatou-se que o ex-delegado comprou um automóvel utilizando o passaporte cancelado. Houve uma tentativa de obter um mandado de prisão nos EUA por fraude documental, que foi negado pela Justiça americana, mantendo a prisão restrita à esfera migratória.
A PF brasileira confirmou sua participação no caso por meio de nota oficial. Segundo a corporação, a ação contou com os alertas emitidos por um delegado brasileiro que atua como oficial de ligação junto ao ICE em Miami.
“A prisão é fruto da cooperação policial internacional entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado”, declarou a PF. A corporação acrescentou que “o preso é considerado foragido da Justiça brasileira após condenação pelos crimes de organização criminosa armada, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado de Direito”.
Fuga estruturada
Alexandre Ramagem havia deixado o Brasil em setembro de 2025, no período final de seu julgamento no STF e antes do trânsito em julgado. Segundo dados levantados pela CNN Brasil, ele utilizou uma rota terrestre saindo de Roraima, cruzou a fronteira para a Guiana e, da capital Georgetown, embarcou para Miami munido de um passaporte diplomático que ainda não havia sido apreendido.
A saída violou a determinação da Suprema Corte, que o proibia de deixar o país. Em 19 de novembro de 2025, após a descoberta de que ele estava nos EUA, o ministro Alexandre de Moraes decretou sua prisão preventiva. Pouco depois, o governo brasileiro solicitou sua inclusão na lista de difusão vermelha da Interpol e, em dezembro de 2025, entregou um pedido formal de extradição ao Departamento de Estado dos EUA por meio da Embaixada em Washington.
Mesmo foragido, Ramagem prestou depoimento por videoconferência ao STF em fevereiro deste ano e chegou a demonstrar tranquilidade em relação à sua estadia no exterior. Em entrevista ao canal Conversa Timeline, no YouTube, declarou: “Nas palavras até do governo americano para mim: ‘Que bom que temos um amigo que está em segurança, a salvo, aqui nos Estados Unidos’. Então, a gente tem esse apoio dos norte-americanos de tudo o que está acontecendo no Brasil”.
Condenação a 16 anos
Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Alexandre Ramagem a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão em regime inicial fechado, além do pagamento de 50 dias-multa. Em consequência, ele perdeu o mandato na Câmara dos Deputados em dezembro e foi demitido de seu cargo de carreira como delegado da Polícia Federal.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou que Ramagem integrou uma organização criminosa que instrumentalizou a estrutura da Abin, a qual chefiou entre 2019 e 2022, no governo de Jair Bolsonaro, para monitorar adversários políticos. Segundo a acusação, ele orientava o então presidente em ataques ao sistema eleitoral, configurando a primeira etapa de um plano para a manutenção do poder à revelia das estruturas constitucionais.
Deportação, extradição ou asilo
Ramagem encontra-se agora em um centro de detenção, onde aguardará a decisão de um juiz de imigração em Jacksonville, Flórida. A defesa tem a possibilidade de solicitar liberdade provisória sob fiança e deverá formalizar um pedido de asilo político, alegando perseguição.
Para evitar a concessão do asilo, autoridades brasileiras articulam uma estratégia focada no risco de fuga, conforme informações publicadas pela jornalista Jussara Soares (CNN Brasil). O governo visa demonstrar que a condenação é referente a crimes comuns, não políticos, e apontar o histórico de evasão estruturada com apoio de terceiros.
O desfecho de sua repatriação pode seguir dois caminhos: a deportação ou a extradição. A deportação é um processo administrativo e mais célere, decorrente da permanência irregular e vencimento do visto. Já a extradição, formalmente pedida pelo Brasil em 2025, é um processo criminal internacional mais longo e complexo, que abre espaço para diversos recursos da defesa e encontra obstáculos no fato de que a tipificação de tentativa de golpe de Estado possui interpretações divergentes na legislação americana.
Caso retorne ao Brasil, por qualquer uma das vias, Ramagem deverá ser imediatamente detido pela Polícia Federal ao desembarcar.


















