O aumento expressivo na importação de morangos do Egito estabeleceu um cenário de crise para o setor agrícola do Espírito Santo, que hoje registra queda na renda de produtores, perda de competitividade e desistência de plantios. Com a fruta estrangeira chegando ao Brasil com valores inferiores ao custo da produção local, agricultores da Região Serrana enfrentam prejuízos que mobilizaram, nesta terça-feira (17), a Secretaria de Estado da Agricultura e a Assembleia Legislativa (Ales) em busca de intervenções comerciais junto ao governo federal.
O Espírito Santo é o quarto maior produtor de morango do Brasil. As lavouras estão concentradas principalmente no Polo de Morango do estado, formado por Santa Maria de Jetibá, Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante e Afonso Cláudio.
Concorrência e diferença de custos
O desequilíbrio no mercado é evidenciado pelos números da balança comercial e pelos custos da lavoura. Em 2022, o Brasil importou cerca de 4 mil toneladas de morango egípcio. No último ano, o volume total de importações do país saltou para cerca de 44 mil toneladas, das quais aproximadamente 40 mil vieram do Egito, número que supera a própria produção capixaba, estimada entre 10 mil e 33 mil toneladas anuais, dependendo do levantamento apresentado pelas autoridades locais.
A atratividade do produto importado, comercializado sobretudo na forma ultracongelada para a indústria de sucos e polpas, esbarra no preço. Enquanto o custo médio para produzir um quilo de morango na Região Serrana capixaba varia de R$ 15 a R$ 16, a fruta africana chega ao Brasil custando entre R$ 7 e R$ 8 o quilo. A situação local foi agravada por um aumento de cerca de 15% nos custos de produção nos últimos 12 meses.
“Como é que o produtor vai sobreviver tendo custo de R$ 16 e vendendo morango a R$ 10 ou R$ 11, para tentar equilibrar a concorrência?”, questionou o secretário de Agropecuária de Santa Maria de Jetibá, Vanderlei Marquez.
Para o produtor Regilvan Barbosa, que cultiva cerca de 14 mil pés de morango em estufas no mesmo município, o impacto atinge diretamente a agricultura familiar. “Quando entraram esses morangos importados, ficou mais difícil para a gente. A região de Santa Maria de Jetibá é grande produtora e a agricultura familiar sente muito”, pontuou.
Impacto financeiro nas cooperativas
A disparidade de preços forçou o repasse da desvalorização ao longo de toda a cadeia. Cooperativas capixabas que fornecem a fruta congelada para a indústria precisaram reduzir o valor pago aos agricultores locais para manterem algum nível de competitividade.
Geovane Schulz, diretor comercial de uma cooperativa em Santa Maria de Jetibá, explicou que o clima do Egito (noites frias e dias quentes) confere à fruta estrangeira qualidades de sabor que agradam à indústria. Com a entrada desse produto, o valor repassado aos produtores capixabas, que no passado chegava a R$ 7,50 por quilo, caiu atualmente para uma faixa de R$ 2,50 a R$ 5,00.
“Hoje, o produtor está bem desanimado. A gente vende também mudas e percebeu muitas desistências de plantio para 2026″, informou Schulz. O produtor Adair José Graciano, de São João do Garrafão, reforçou a retração do setor: “Hoje não temos comércio, não temos venda. O preço oferecido está abaixo do custo de produção”.
Mobilização política e alternativas
A Comissão de Agricultura da Ales se reuniu nesta terça-feira (17) para debater o tema. O presidente do colegiado, deputado Adilson Espindula (PSD), destacou que mais de mil propriedades estão envolvidas na cultura da fruta, gerando cerca de R$ 400 milhões em renda. “Não somos contra o comércio internacional, mas precisamos garantir relações justas. Não podemos permitir que o produtor seja penalizado por uma concorrência desleal”, afirmou.
O secretário de Estado da Agricultura, Enio Bergoli, explicou que os acordos comerciais vigentes reduziram as tarifas de importação para cerca de 4%. Diante disso, o governo capixaba enviou um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), solicitando que a Câmara de Comércio Exterior analise a elevação da alíquota. “O morango de fora pode vir, mas precisa haver uma relação justa entre o custo de produção aqui e o custo da importação”, defendeu Bergoli.
Durante a reunião na Ales, as autoridades e produtores definiram os seguintes encaminhamentos:
-Solicitação de apoio estadual para produtores, especialmente os endividados;
Elaboração de um documento oficial de alerta ao governo federal;
Mobilização da bancada federal capixaba em Brasília;
Defesa de aumento de tarifas, criação de cotas de importação e revisão de acordos comerciais;
Ampliação da assistência técnica para tentar baratear a produção capixaba.
Enquanto as medidas políticas são articuladas, o que depende do Ministério da Indústria e Comércio, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) sugere a diversificação de culturas. A pesquisadora Andrea Costa, no entanto, ressalta os desafios da transição: “Aprender a trabalhar com outra cultura leva tempo, assim como implantar uma nova lavoura. Para quem depende apenas do morango, isso pode trazer problemas muito sérios para a renda da família”.


















