A busca pela equidade de gênero no mercado de trabalho e a falta de políticas corporativas de apoio à parentalidade tornam o planejamento familiar um fator decisivo na trajetória profissional feminina. Diante da disparidade contínua em remuneração, oportunidades e acesso a cargos de liderança, as mulheres precisam integrar decisões pessoais, como o adiamento da maternidade e a adoção de tratamentos de fertilidade, à gestão de suas carreiras. A análise é da doutora em Gestão da Inovação e executiva Renata Seldin, que destaca as disparidades históricas enfrentadas por mulheres no ambiente corporativo.
De acordo com a especialista, que atua há mais de 24 anos em consultoria de gestão, a premissa de que homens e mulheres iniciam suas trajetórias profissionais em pé de igualdade é falha. “A dupla jornada das mulheres, somada aos vieses da sociedade, cria trajetórias diferentes”, afirma Seldin.
Vieses de comportamento e representatividade
A falta de representatividade em cargos de alto escalão atua como um desestímulo e gera dúvidas sobre a capacidade feminina no ambiente de trabalho. Aquelas que persistem no objetivo de ascensão frequentemente necessitam despender um esforço maior para obter reconhecimento.
A autora pontua que há um duplo padrão na avaliação comportamental nas empresas. “A assertividade masculina é vista como confiança e liderança, enquanto a feminina é arrogância ou grosseria; ambição em homens é visão estratégica, em mulheres pode parecer excesso ou insatisfação”, detalha.
O adiamento da maternidade e o peso da idade
Profissionais com foco na ascensão corporativa lidam constantemente com o dilema de abrir mão ou postergar a decisão de ter filhos. Atualmente, o mercado registra uma mudança de comportamento estimulada pela busca de autonomia financeira, ampliação de objetivos de vida e possibilidades de crescimento, o que tem diminuído a pressão social sobre a obrigatoriedade da maternidade.
Contudo, a carreira feminina segue impactada por pausas e desvios. Um dado que ilustra o peso dessas largadas atrasadas é o levantamento da revista Forbes sobre as 100 mulheres mais poderosas do mundo: desse grupo, 80% já ultrapassaram a faixa dos 50 anos, evidenciando que a chegada ao topo ocorre, majoritariamente, em idades mais avançadas.
Preservação da fertilidade e ausência de apoio empresarial
A decisão sobre a chegada dos filhos transcende questões de genética ou idade, englobando também relacionamentos, desejos pessoais e o estágio da carreira. Uma das opções que tem ganhado espaço é o congelamento de óvulos, embora, segundo a autora, o processo seja frequentemente acompanhado por medo, informações confusas e altos custos financeiros.
Seldin esclarece que o procedimento funciona como uma ferramenta estratégica de tempo. “Informar-se sobre congelamento de óvulos e optar por ele não significa necessariamente que a mulher terá o desejo ou será mãe no futuro, mas preserva seu direito de escolha por mais tempo”, pontua a especialista.
No cenário ideal, a estruturação de políticas de equidade deveria partir do próprio setor corporativo. O mercado deveria oferecer apoio por meio de informações sobre planejamento familiar, ampliação de licenças parentais, programas de reintegração, cultura inclusiva, flexibilidade e benefícios de apoio à parentalidade. No entanto, a executiva constata que essa estrutura raramente sai do papel na maior parte das empresas.
Diante da omissão de parte do mercado, a recomendação é que as profissionais atuem de forma autônoma na busca por informação e integrem o planejamento familiar às suas trajetórias profissionais. Para Seldin, a igualdade não se resume a alcançar as posições de liderança, mas passa pelo poder de decisão sobre quando e como consolidar essa trajetória sem a necessidade de anular a própria identidade.


















