A prévia da inflação oficial do Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), acelerou para 0,84% em fevereiro, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (27). O resultado representa um salto em relação aos 0,20% registrados em janeiro e configura a maior alta para o mês desde fevereiro de 2025. O avanço foi puxado primordialmente pelos reajustes tradicionais de início de ano letivo no setor de Educação e pelo encarecimento dos Transportes.
Com o desempenho de fevereiro, o indicador acumula alta de 1,04% em 2026. No acumulado dos últimos 12 meses, a taxa situa-se em 4,10%, apontando uma desaceleração em comparação aos 4,50% observados no período imediatamente anterior. O percentual do mês, no entanto, veio acima das projeções do mercado financeiro, que estimava um avanço entre 0,56% e 0,57%.
O peso das mensalidades escolares e dos transportes
Entre os nove grupos de produtos e serviços pesquisados, o de Educação registrou a maior variação e foi o principal fator de pressão no índice, com alta de 5,20% e impacto direto de 0,32 ponto percentual (p.p.). O aumento reflete os reajustes nas mensalidades de escolas e cursos regulares (6,18%).
As maiores elevações na área educacional ocorreram em:
- Ensino médio: 8,19%
- Ensino fundamental: 8,07%
- Pré-escola: 7,49%
O grupo Transportes exerceu o maior impacto geral no índice (0,35 p.p.), registrando a segunda maior alta do mês: 1,72%. O destaque absoluto foi o encarecimento das passagens aéreas, que saltaram 11,64%. Os combustíveis também pressionaram o orçamento, subindo, em média, 1,38%, com altas no etanol (2,51%), gasolina (1,30%) e óleo diesel (0,44%). O gás veicular foi a única exceção no segmento, com recuo de 1,06%.
Ainda em Transportes, as passagens de ônibus urbano registraram variação de 7,52% devido a reajustes em seis das onze áreas pesquisadas. O metrô também ficou mais caro, com taxa de 2,22%.
Oscilações em Alimentação, Habitação e Saúde
Os demais grupos de consumo apresentaram variações mais tímidas ou recuos no período de apuração:
- Saúde e cuidados pessoais (0,67%): Impulsionado por artigos de higiene pessoal (0,91%) e reajustes em planos de saúde (0,49%).
- Alimentação e bebidas (0,20%): O consumo no domicílio teve leve alta (0,09%), puxado pelo tomate (10,09%) e pelas carnes (0,76%). Em contrapartida, recuaram os preços do arroz (-2,47%), do frango em pedaços (-1,55%) e das frutas (-1,33%). A alimentação fora de casa subiu 0,46%, com refeições e lanches mais caros.
- Habitação (0,06%): A taxa de água e esgoto subiu 1,97% e o aluguel residencial avançou 0,32%. Contudo, a energia elétrica residencial apresentou queda expressiva de 1,37%, beneficiada pela vigência da bandeira tarifária verde, sem cobranças extras, ajudando a frear o índice geral.
- Vestuário (-0,42%): Único grupo a registrar deflação no mês.
Cenário regional
Na análise regional, a maior inflação foi registrada na Região Metropolitana de São Paulo (1,09%), impulsionada pelas passagens aéreas (16,92%) e pelo ensino fundamental (8,32%). O menor índice ocorreu em Recife (0,35%), influenciado pela queda no transporte por aplicativo (-10,34%) e na energia elétrica (-2,32%).
Os dados foram coletados pelo IBGE entre 15 de janeiro e 12 de fevereiro de 2026, abrangendo famílias com rendimento de 1 a 40 salários-mínimos em 11 áreas urbanas do país. A próxima divulgação do IPCA-15 está agendada para 26 de março.
Perspectivas do mercado e taxa Selic
Apesar de o resultado de fevereiro ter frustrado as expectativas mais otimistas, analistas avaliam que a inflação estrutural dá sinais de perda de força. O economista Maykon Douglas pondera que o aumento teve causas específicas do período.
“Se retirarmos o reajuste das mensalidades escolares, que ocorre no início do ano, os números mostram um comportamento menos uniforme. […] Quando observamos os dados mais recentes sem considerar variações típicas do período, vemos que a inflação continua desacelerando”, afirmou Douglas, que projeta o índice em torno de 4,0% para 2026.
Economistas do Banco Daycoval corroboram a visão de que, apesar da pressão exercida pelas passagens aéreas, a trajetória de longo prazo segue controlada. “Apesar do resultado acima do esperado, mantemos nossa previsão de inflação em 3,8% até o fim do ano”, informou a instituição em nota.
Tanto Douglas quanto a equipe do Daycoval avaliam que o cenário abre espaço para que o Banco Central inicie um ciclo de corte na taxa básica de juros (Selic) já na reunião de março, com uma redução inicial estimada em 0,25 ponto percentual. Atualmente, a Selic encontra-se em 15% ao ano, o patamar mais elevado em quase duas décadas.


















