economia

Bolsa Família mantém mulheres no mercado de trabalho e garante sustento dos lares, aponta FMI

16 fev 2026 - 10:30

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

Share
Levantamento indica que saída da força produtiva está ligada à falta de creches e tarefas domésticas. Mais de 84% das famílias beneficiárias são chefiadas por elas
Estudo do FMI aponta que Bolsa Família não afasta mulheres do mercado de trabalho. Foto: LYON SANTOS/ MDS

Um estudo divulgado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que o Bolsa Família não reduz sistematicamente a participação feminina na força de trabalho. De acordo com a pesquisa, publicada nesta quarta-feira (11), o afastamento das mulheres do emprego formal está relacionado principalmente à necessidade de dedicação a tarefas domésticas e ao cuidado com filhos de até seis anos, e não ao recebimento da transferência de renda.

Para chegar a essa conclusão, o FMI utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD-Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números mostram a centralidade da mulher na gestão do benefício: em fevereiro de 2026, das 18,84 milhões de famílias atendidas pelo programa, mais de 15,9 milhões (84,38%) são chefiadas por mulheres, que administram a aplicação dos recursos.

Economia do cuidado e desigualdade
O levantamento aponta que as responsabilidades familiares são o principal fator para a menor participação feminina no mercado. Segundo o estudo, mulheres com crianças de até seis anos tendem a sair da força de trabalho para assumir cuidados não remunerados.

Dados de um estudo complementar intitulado Políticas para a Corresponsabilidade no Mundo do Trabalho, lançado em 2025 numa parceria entre o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), detalham essa disparidade. No Brasil, as mulheres dedicam, em média, 9,8 horas a mais por semana ao trabalho doméstico do que os homens. O cenário é mais acentuado entre mulheres negras, que chegam a dedicar 22,4 horas semanais a essas atividades.

Ainda segundo a pesquisa MDS/OIT, 50% das mulheres deixam o mercado de trabalho até dois anos após o nascimento do primeiro filho. Em contrapartida, os homens, em média, registram aumento em seus rendimentos no mesmo período.

Conforme declarado por 34,4% de um grupo participante da PNAD-Contínua, o motivo principal para abandonar a força de trabalho foi a necessidade de “cuidar dos afazeres domésticos, do filho, ou de outro parente”.

Impacto econômico e salarial
O FMI destaca que aumentar a presença feminina no mercado é crucial para o desenvolvimento econômico. As projeções indicam que, se a diferença na taxa de participação entre homens e mulheres caísse de 20 para 10 pontos percentuais até 2033, o crescimento anual do Brasil poderia aumentar em cerca de 0,5 ponto percentual.

Outra barreira identificada é a questão salarial. O estudo do FMI afirma que mulheres tendem a receber salários mensais 22% inferiores aos dos homens, mesmo em comparações que consideram escolaridade, idade, raça, setor e cargo. Especialistas avaliam que essa diferença pode levar beneficiárias do Bolsa Família a optarem por ficar em casa, dado o custo-benefício desfavorável do ingresso no mercado formal.

Formalidade mantida
Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicada no ano passado, também analisou o comportamento dos beneficiários frente ao aumento do valor mínimo do Bolsa Família instituído desde 2023. O Ipea constatou que a mudança no valor “não gerou um incentivo para que os trabalhadores migrassem de empregos formais para informais”.

Atualmente, o desenho do programa prevê repasses adicionais de R$ 150 por criança na primeira infância e R$ 50 para gestantes, nutrizes e jovens de até 18 anos incompletos.

Caminhos para solução
Para reverter o cenário de afastamento, o FMI e a pesquisa MDS/OIT sugerem um conjunto de medidas estruturais. Entre as recomendações estão:

  • Ampliação do acesso a creches e serviços de assistência a idosos;
  • Ajustes na política de licença parental;
  • Implementação eficaz da Lei da Igualdade Salarial;
  • Incentivo à corresponsabilidade entre homens e mulheres nas tarefas domésticas.

As instituições argumentam que tais políticas integradas assegurariam o “direito ao cuidado” e promoveriam um ambiente favorável para o retorno e a permanência das mulheres no mercado de trabalho.

0
0

Se você observou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, nos avise. Clique no botão ALGO ERRADO, vamos corrigi-la o mais breve possível. A equipe do EmDiaES agradece sua interação.

Comunicar erro

* Não é necessário adicionar o link da matéria, será enviado automaticamente.

A equipe do site EmDiaES agradece sua interação.