Mais um Setembro Amarelo se inicia, com o debate sobre a importância da saúde no combate ao suicídio. Os dados a respeito do índice de idosos que tiram a própria vida está maior que o de jovens e alarmam a sociedade, trazendo a necessidade de discutir a elaboração de as politicas públicas englobarem todas as idades.
A titular de psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Maria Benedita Reis, realizou uma pesquisa de mestrado sobre o suicídio entre idosos no Espírito Santo entre os anos de 2006 a 2019. De acordo com a especialista, é preciso redobrar a atenção quanto a saúde mental dessa população.
“O mundo está envelhecendo e o Brasil não se preparou para o envelhecimento como os países europeus. Ontem, tínhamos um país de jovens voltado para o futuro. Porém, hoje, somos um país de grisalhos com uma alta previsão de envelhecimento em massa nos próximos 40 a 60 anos, conforme pontuado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)”.
De acordo com a especialista, o sentimento de solidão e culpa que atinge os idosos muitas vez são o responsáveis pela depressão. “O idoso se sente descartado, como se fosse um peso para a família, sem expectativas para a vida, vendo os amigos e parentes morrendo. Há outros casos, em que eles ainda são os arrimos de família, apesar de se sentirem cansados ou não terem mais condições para. Em geral, esse idoso não comenta sobre estar triste justamente por ter vergonha e se sentir um fardo para os familiares”.
Dores crônicas, dificuldade para se locomover, não sair de casa e a falta de uma rede de apoio, como amigos e familiares são outros fatores também responsáveis pelo desenvolvimento de depressão, listou Maria Benedita Reis.
No período da pesquisa, foram registrados 344 suicídios entre idosos no Espírito Santo. pelo DATASUS. Porém, a especialista destaca que há uma grande subnotificação dos casos.
“É possível que seja um número muito maior devido a grande parte dos casos de suicídios, não só entre idosos, ser registrada com outras causas de morte. Por exemplo, se um idoso se jogar de uma janela, a causa da morte será registrada como politraumatismo. Essa subnotificação é um espelho do preconceito da sociedade e, principalmente, entre os profissionais de saúde”.
Conforme o detalhado pela psiquiatra, pesquisas brasileiras e internacionais apontam que a taxa de suicídios entre idosos está maior do que entre jovens. “O Espírito Santo acompanha a taxa brasileira, destacando que entre idosos o suicido acomete de 9 a 11 por 100 mil habitantes, enquanto, entre jovens, 6 por 100 mil cometem o ato”.
A médica ressalta que a incidência do suicídio entre homens é maior do que entre mulheres. “Chega a ser entre três a quatro vezes maior entre os homens idosos do que entre as mulheres. Isso acontece porque os homens tendem a ser mais fechados a respeito dos sentimentos e se sentem culpados por perder a capacidade de prover a família. Ou seja, a ausência de uma papel social somado a falta de valorização e menor espiritualidade. Já as mulheres, por possuírem esse caráter cuidador de um familiar, um neto, ou de um vizinho, acabam encontrando um propósito maior”.
Na tese, a especialista defende que o desenvolvimento de politicas públicas é a principal forma de minorar os casos de suicídio entre idosos. “Nossos idosos precisam ser escutados, já que não procuram assistência psiquiátrica, a melhor forma é a capacitação do profissionais de saúde da atenção primária e comunitários, para poderem identificar essas situações que, muitas vezes, a família não consegue identificar”.
Além disso, a especialista destaca a importância de inserir os idosos em atividades de lazer, saúde, psicologia e terapias. A criação de cursos para profissionais também auxilia na atenção a todos sinais. “É importante criar cursos de capacitação para os profissionais da atenção primaria tanto da rede pública, quanto da privada, para que eles entendam melhor a questão do sofrimento entre idosos”.
Fique atento aos sinais
De acordo com o psiquiatra Valber Dias Pinto, há sinais importantes que alertam para uma possível situação de suicídio, os chamados “6Ds”, do Comitê do Setembro Amarelo. “A primeira palavra é o desespero, em que a pessoa, mesmo sem ter nenhum quadro de doença mental, numa situação de desespero, seja por um motivo financeiro ou por algum tipo de reverso pessoal, pode acabar tirando a própria vida. A desesperança e desamparo seguem essa mesma lógica. Há também quadros depressivos ou em situações de dependência química”.
Além dos já listados, o especialista destaca que outro quadro causado por condições orgânicas, entre elas, doenças, por exemplo. “Esse quadro acontece quando a pessoa tem um delírio causado por uma condição orgânica. Um quadro infeccioso, por exemplo, a síndrome da pós-Covid, ilustra bem a relação da doença com o aumento da chance de suicídio. A quarta onda da Covid é caracterizada pelo desenvolvimento de problemas psiquiátricos, doenças mentais, problemas econômicos e Burnout“.
O psiquiatra aprofunda sobre a questão da dependência química e a relação dela com os casos de suicídio. “Somente o uso de álcool e estimulantes podem fazer com que uma pessoa cometa o ato, já que a ingestão em si do produto pode ser um gatilho. A substância suspende possíveis fatores de prevenção que impediriam uma pessoa de tomar essas medidas, ou seja, as deixam mais frágeis e suscetíveis”.
O que fazer se identificar sinais de risco?
O psiquiatra listou uma série de atitudes para serem tomadas em caso de identificação de algum desses fatores de risco em um possível paciente:
. Em primeiro lugar, ser um bom ouvinte é essencial;
. Ter toda atenção, não apenas aos fatos, mas a dor, medos e ansiedades;
. Não julgar ou dar conselhos;
. Demonstrar disponibilidade para ajudar;
. Explicar que a dor emocional é compreensível e aceitável face às vivências presentes;
. Demonstrar empatia: procure compreender as coisas não do ponto de vista pessoal, mas segundo o ponto de vista do outro. Não faça comparações;
. Não mude de assunto, nem faça comentários do tipo: “se anime”, “vai ficar tudo bem”;
. Não hesite em questionar aberta e diretamente a ideia de suicídio enquanto uma opção válida.
O especialista ressalta que a abordagem a este tema sensível varia em função da situação e relação de confiança estabelecida.
Como conseguir ajuda?
O psiquiatra recomenda sempre buscar ajuda de maneira preventiva, isto é, por meio de médicos especializados em diversas áreas. “A terapia tem que ser multidisciplinar, com atendimento psicólogo e psiquiátrico, entre outros, para que a situação não evolua a concretização do ato. A participação da família, cônjuge e amigos na busca por essa ajuda é muito importante, para a pessoa ter uma rede de apoio e incentivo. Essa rede tem o papel de validar essas queixa, estar disposto a ouvir essa pessoa para que ela se sinta acolhida”.
O especialista alerta para importância da desmistificação sobre pessoas que já tentaram se suicidar anteriormente. “Precisamos acabar com esse mito que se uma pessoal tentou e não conseguiu, não voltará a fazer porque, na verdade, a maior parte das pessoas que já tentaram tendem a voltar a tentar novamente. Precisamos lidar de maneira séria com pessoas que costumam falar que tem vontade de morrer e parar de dizer que apenas estão querendo chamar atenção”.
Segundo o especialista, o tratamento vai focar em identificar aqueles fatores de risco citados anteriormente e tratar essas condições, conforme a demanda. “Então se, por exemplo, a pessoa tem um problema de saúde mental sem tratar esse problema, ela está numa situação de desamparo e desesperança. O responsável vai identificar se tem algum quadro clínico associado a isso ou se é uma questão de acolhimento. Se tem um quadro de dependência química tratar essa problemática. A importância de que esse tratamento funcione é muito necessária tendo em vista que uma pessoa que já tentou suicídio tem mais probabilidades de tentar novamente em caso de falha”.
Há fatores que podem proteger do suicídio, de acordo com o psiquiatra: trabalhar a autoestima, ter um bom suporte familiar, laços sociais bem estabelecidos, estabelecer uma rotina de cuidados, relacionamentos, trabalhar a questão da espiritualidade e ter um propósito para viver.
Brasil
De acordo com a última pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2019, o Brasil registra 14 mil casos de pessoas que tiram as próprias vidas por ano, o que indica uma média de 38 por dia.
Estudos da OMS apontam, ainda, que, todos os anos, mais pessoas morrem por resultado de suicídio do que HIV, malária, câncer de mama ou de causas externas (guerras e homicídios).
“Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa de morte, depois de acidentes no trânsito, tuberculose e violência interpessoal. Trata-se de um fenômeno complexo, que pode afetar indivíduos de diferentes origens, sexos, culturas, classes sociais e idades”, diz a OMS.
No mundo
Segundo a OMS, as taxas variam entre países, regiões e entre homens e mulheres. No Brasil, 12,6% por cada 100 mil homens em comparação com 5,4% por cada 100 mil mulheres morrem devido ao suicídio.
As taxas entre os homens são, geralmente, mais altas em países de alta renda (16,6% por 100 mil). Para as mulheres, as taxas de suicídio mais altas são encontradas em países de baixa média renda, com 7,1% por 100 mil.
Mundialmente, conforme o apontado pela organização, a taxa de suicídio está diminuindo, com uma queda de 36% na taxa global, diminuições variando de 17% na região do Mediterrâneo Oriental a 47% na região europeia e 49% no Pacífico Ocidental. Mas, na Região das Américas, houve aumento de 17% no mesmo período entre 2000 e 2019.
“Embora alguns países tenham colocado a prevenção do suicídio no topo das agendas, muitos permanecem não comprometidos. Atualmente, apenas 38 países são conhecidos por terem uma estratégia nacional de prevenção do suicídio”, pontua a OMS.
Importância do Setembro Amarelo
Falar sobre a prevenção da vida ajuda no combate ao suicídio. Quando uma pessoa decide terminar com a própria vida, os pensamentos, sentimentos e ações apresentam-se muito restritivos.
Ou seja, a pessoa pensa constantemente sobre o suicídio e é incapaz de perceber outras maneiras de enfrentar ou de sair do problema. Elas pensam rigidamente pela distorção que o sofrimento emocional impõe.
Se informar para aprender e ajudar o próximo é a melhor saída para lutar contra esse problema tão grave. É muito importante que as pessoas próximas saibam identificar que alguém está pensando em se matar e ajude, tendo uma escuta ativa e sem julgamentos, mostrando que está disponível para ajudar e demonstrar empatia, mas, principalmente, levando ao médico psiquiatra, que vai saber manejar a situação e salvar esse paciente.