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Em possível delação, Daniel Vorcaro deve mirar em políticos e poupar ministros do STF

16 mar 2026 - 09:45

Redação Em Dia ES - por Julieverson Figueredo

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Com nova defesa, dono do Banco Master busca poupar ministros do STF em eventual acordo, mas Polícia Federal e relator exigem colaboração irrestrita sobre autoridades dos Três Poderes
Estratégia de delação de Daniel Vorcaro mira políticos e expõe racha com investigadores. Foto: Reprodução

O empresário e ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, articula um acordo de delação premiada focado em expor conexões políticas, mas poupando integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Preso preventivamente no âmbito da Operação Compliance Zero, Vorcaro encontra, no entanto, forte resistência na Polícia Federal (PF) e no STF, que rechaçam acordos parciais. A mudança na estratégia de defesa ocorre após a Segunda Turma do Supremo formar maioria, na última sexta-feira (13), para mantê-lo na Penitenciária Federal de Brasília, onde está desde 6 de março de 2026.

A estratégia da nova defesa e o “andar de cima”
O estopim para a decisão efetiva de buscar a delação foi o julgamento no STF que manteve a prisão preventiva do banqueiro. Segundo informações da jornalista Clarissa Oliveira, da CNN Brasil, a defesa trabalhava até então com a ideia de reverter a prisão e invalidar provas. Com a manutenção da medida (faltando apenas o voto do ministro Gilmar Mendes), Vorcaro trocou de advogado, substituindo Pierpaolo Cruz Bottini por José Luis de Oliveira Lima, o Juca.

A expectativa é que o banqueiro adote uma negociação discreta para evidenciar as conexões políticas que alimentaram seus negócios, focando no “andar de cima”.

O desenho inicial dessa delação, no entanto, prevê blindar o STF. O jornalista Caio Junqueira, também da CNN Brasil, apurou que há três motivos principais para essa manobra: primeiro, obter a validação da Procuradoria-Geral da República (PGR), comandada por Paulo Gonet, cuja proximidade com ministros da Corte dificultaria a aceitação de uma delação contra o tribunal; segundo, as relações pessoais do novo advogado, Juca, com o Supremo; e terceiro, o risco profissional para o escritório de advocacia ao mirar altas Cortes, tendo como precedente a Operação Lava Jato.

As investigações citam os ministros Alexandre de Moraes, em razão de um contrato de R$ 129 milhões do escritório de sua esposa com Vorcaro, e Dias Toffoli, por um negócio entre o Banco Master e um fundo com participação de seus familiares. Segundo Junqueira, Juca tem proximidade com Toffoli.

Investigadores rechaçam acordo “meia-boca”
A intenção de preservar o STF, contudo, esbarra nas autoridades. A jornalista Andréia Sadi, do g1, revelou que investigadores da Polícia Federal e interlocutores do gabinete do ministro André Mendonça indicam que não aceitarão uma delação seletiva.

A proposta de uma colaboração limitada chegou a ser sondada por advogados junto aos investigadores, mas foi rechaçada. Mendonça, relator do caso, tem repetido que não protegerá ninguém e que, se houver delação, ela deverá detalhar as relações de Vorcaro com autoridades dos Três Poderes. Informações parciais não serão homologadas, e os dados oferecidos serão cruzados com as provas já existentes.

A estratégia de poupar a Corte colide com as investigações da PF, que afirmam possuir material robusto contra Toffoli, sugerindo que um acordo direto com a Polícia Federal seria a alternativa caso a PGR recuse a colaboração.

Crimes financeiros e vazamento de informações
Além dos políticos, a delação de Vorcaro deve abranger crimes financeiros. O acordo pode envolver as relações do Master com carteiras de crédito consignado, como o CrediCesta (idealizado pelo ex-sócio Augusto Lima), e transações com João Carlos Mansur, fundador da liquidada parceira Reag. Mansur, que também é defendido por Juca, é outro nome avaliado para fechar um acordo de delação.

Paralelamente, a investigação encontrou indícios de que Vorcaro teve acesso a informações sigilosas antes de sua primeira prisão. O jornalista Matheus Teixeira reportou que um relatório enviado pela PF ao STF contém anotações do celular do banqueiro do dia 17 de novembro, horas antes da operação. Nas anotações, há uma mensagem do então advogado Walfrido Warde afirmando que estava “infernizando” a vida do juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, responsável pelo caso na primeira instância.

Em nota enviada a Teixeira, o escritório de Warde negou o acesso a dados sigilosos, afirmando que a defesa apenas buscou contato para despachar uma petição ao inferir que o inquérito estaria naquela vara especializada, classificando as acusações como “caluniosas”.

Impactos institucionais no Banco Central
O escândalo do Banco Master extrapolou a esfera policial e atingiu a cúpula da economia nacional. Segundo a jornalista Lucinda Pinto, da CNN Brasil, a crise atrasou a definição de duas diretorias estratégicas do Banco Central (BC): a de Política Econômica e a de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução.

Foi desta última diretoria, comandada interinamente por Renato Gomes, que partiu a decisão de barrar a venda do Master e decretar sua liquidação. Carolina Bohrer é um dos nomes sugeridos pelo mercado ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, para assumir a vaga definitivamente, por seu papel na intervenção. Já para a Política Econômica, a indicação de Guilherme Mello (sugerida pelo ministro Fernando Haddad) enfrentou resistência no mercado e no próprio BC. As vagas seguem abertas enquanto a autarquia conduz uma das maiores intervenções bancárias recentes do país.

As regras de uma eventual delação
Caso a negociação avance, o trâmite processual seguirá ritos rigorosos. O acordo precisará ser homologado por um magistrado no STF, que analisará a utilidade e a profundidade das informações prestadas.

Se aceito, Vorcaro deverá narrar todos os ilícitos praticados e apresentar provas, renunciando ao direito de permanecer em silêncio, em troca de benefícios legais que vão desde a diminuição da pena em até dois terços, o cumprimento em regime semiaberto, até o perdão judicial. Nenhuma condenação poderá ser baseada unicamente nos depoimentos do delator.

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Atualizado: 16/03/2026 10:28

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