O senador Jaques Wagner (PT-BA) deve anunciar nesta semana o seu afastamento da liderança do governo no Senado Federal, em Brasília. A decisão do parlamentar ocorre após ele se tornar alvo da operação Compliance Zero, deflagrada na última quinta-feira pela Polícia Federal para investigar suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro. O recuo, definido neste final de semana após sucessivas conversas com lideranças petistas, tem o objetivo de estancar o desgaste político e evitar impactos diretos na campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com informações do blog de Tainá Falcão, da CNN Brasil, o senador baiano resistiu inicialmente à pressão de uma ala do Palácio do Planalto e do próprio Partido dos Trabalhadores. No entanto, aliados próximos o convenceram de que a permanência no cargo ampliaria o desgaste contra ele próprio e o governo federal. Falcão apurou ainda que uma conversa entre Wagner e o presidente Lula está prevista para os próximos dias, quando o parlamentar comunicará oficialmente sua saída para se concentrar em sua defesa.
Investigação e apreensões
A operação Compliance Zero investiga supostos esquemas de corrupção passiva, lavagem de capitais e recebimento de vantagens indevidas. O inquérito envolve pessoas e empresas ligadas ao antigo Banco Master. A Polícia Federal identificou indícios de benefícios econômicos recebidos pelo parlamentar de forma direta ou indireta, a partir de ligações com Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.
A situação do senador se agravou após a divulgação de imagens de dinheiro em espécie apreendido pela corporação e de suspeitas envolvendo um apartamento de alto padrão em Salvador. Em sua defesa, Jaques Wagner nega qualquer irregularidade, afirma que o imóvel nunca integrou seu patrimônio e justifica que os valores em espécie são provenientes de diárias legais recebidas em missões internacionais oficiais.
Segundo a apuração de Tainá Falcão, a entrevista concedida por Wagner logo após as acusações foi considerada um desastre pelo entorno presidencial. Fontes afirmaram à CNN Brasil que o sentimento de Lula neste momento é de decepção, sobretudo porque Wagner havia assegurado por mais de uma vez que não existiam elementos para uma operação policial contra ele.
O impacto no governo e a influência baiana
A crise envolvendo o ex-governador também redesenha a dinâmica de forças no terceiro mandato do governo federal. De acordo com a análise da colunista Daniela Lima, do UOL, o escândalo afeta diretamente o grupo político que marcou posição e ampliou seu poder desde o início da atual gestão: a chamada “República do Acarajé”. Esse núcleo é formado por Wagner, pelo ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, e pelo governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues.
A coluna do UOL destaca que a ascensão desse grupo gerou diversos embates com integrantes do primeiro escalão. Segundo Daniela Lima, Rui Costa ganhou fama de leão de chácara e colecionou atritos na Esplanada dos Ministérios. A jornalista lista como alvos frequentes do núcleo baiano figuras de peso, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o chefe da Controladoria-Geral da União, Vinicius Carvalho, ex-ministros como Flávio Dino e Ricardo Lewandowski, da Justiça, e o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates. Lewandowski chegou a relatar a auxiliares que a Casa Civil havia se tornado uma espécie de “Triângulo das Bermudas” e reclamou do constante fogo amigo interno.
Outro alvo das tensões do grupo é o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Passos Rodrigues. Daniela Lima revela que o atual ministro da Justiça, aliado de Rui Costa e Jaques Wagner, mantém uma relação distante com a chefia da corporação. Ao comentar a operação, Wagner chegou a alegar que a ação seria uma tentativa de desestabilizá-lo, usando a sua longa relação de 40 anos com o presidente da República como escudo.
Apesar da forte proximidade pessoal entre Lula e Wagner, o cenário político atual exige respostas. A expectativa nos bastidores, agravada pelo calendário eleitoral, é de que a influência e o tamanho do grupo baiano passem por um forte redimensionamento dentro do Palácio do Planalto.


















