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Crise na UPA Infantil de Linhares: Pais denunciam piora no atendimento, e médicos relatam abusos e perseguições

04 abr 2025 - 14:15

Redação Em Dia ES

por Julieverson Figueredo

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Profissionais de saúde e pacientes relatam interferências na gestão, demissões arbitrárias, imposição de monitoramento e queda na qualidade do serviço
Denúncias apontam assédio moral, abusos de poder e precarização do atendimento. Foto: Junior Bergamaschi/Em Dia ES

A população de Linhares tem enfrentado dificuldades no atendimento pediátrico da UPA Infantil 24h após mudanças na administração da unidade. Pais e responsáveis denunciaram ao Em Dia ES uma piora na qualidade do serviço, a falta de médicos experientes e condutas que colocam em risco a saúde das crianças atendidas. Ao mesmo tempo, profissionais da saúde relatam um ambiente de trabalho conturbado, com supostos casos de assédio moral, abusos de poder e demissões sem justificativa.

Segundo relatos, as reclamações surgiram após a nomeação da nova coordenadora da unidade, Dra. Mayara Capila, na segunda quinzena de março deste ano. Desde então, médicos denunciam um ambiente de trabalho conturbado e relatam que a Dra. Mayra, irmã de Mayara e médica pediátrica do HGL sem cargo administrativo na UPA, estaria interferindo diretamente na gestão. Enquanto pacientes enfrentam dificuldades para obter atendimento adequado, médicos afirmam que estão sendo pressionados e desrespeitados no exercício de suas funções.

Um dos casos relatados é o de um médico que teria sido ameaçado de demissão após discordar da Dra. Mayra sobre a internação de uma criança com dor abdominal.

“Ela afirmou que faria com que ele fosse demitido, alegando que ele não tinha competência para ocupar sua posição. Isso tudo ocorreu porque ela discordou de uma conduta dele em relação à internação de um paciente. Essa situação aconteceu na frente de todos os funcionários e pacientes”, conta uma médica da unidade.

Segundo os médicos, o caso envolvia uma criança com quadro de dor abdominal e grande desconforto, que já havia realizado duas tomografias e vários exames, todos normais. Além disso, ela foi avaliada pelo cirurgião do hospital de referência, que descartou a necessidade de cirurgia. Diante disso, o médico optou por interná-la para controle da dor e investigação. No entanto, Mayra discordou da decisão, alegando que o quadro era cirúrgico. Ela acusou o médico de um erro grave e passou a insultá-lo na frente de todos.

“Mesmo que houvesse uma falha médica, o que não era o caso, aquele não era o comportamento adequado para lidar com a situação, independentemente do cargo ocupado”, afirmou uma profissional que testemunhou o ocorrido.

Outro médico relatou que após esse episódio, a Dra. Mayra começou a enviar mensagens determinando mudanças nos protocolos e alegando que permaneceria dentro dos consultórios para supervisionar o trabalho dos médicos. Além disso, passou a tratar os profissionais com xingamentos na frente de pacientes e colegas.

“Ela chegou dizendo que ‘todos nós éramos médicos de merda’, que ‘não sabíamos o que estávamos fazendo’ e que ‘nosso antigo supervisor era um profissional de merda’. Foram palavras extremamente ofensivas, ditas em alto e bom som na frente de pacientes e funcionários, desestabilizando todo o plantão.”

Demissões e mudanças na escala
Médicos denunciam ainda que, com a chegada da nova gestão, pelo menos oito profissionais experientes foram retirados da escala sem justificativa formal. A demissão do antigo supervisor também teria ocorrido sem explicação clara.

“A Dra. Mayara disse que isso é normal em qualquer lugar, que troca de gestão sempre traz mudanças. Mas o problema é que retiraram profissionais com anos de experiência e colocaram pessoas com pouca ou nenhuma vivência em pediatria”, relatou um dos denunciantes.

Uma das médicas que teria assumido um papel de destaque após as demissões passou a buscar novos profissionais por WhatsApp, sem critérios definidos.

“Ela começou a mandar mensagens perguntando: ‘Você conhece alguém para trabalhar aqui?’, exatamente dessa forma, sem especificar a necessidade de pediatras ou especialistas”, denunciou um profissional.

Reclamações das famílias
Segundo médicos ouvidos pelo Em Dia ES, os próprios pais dos pacientes, ao saberem das mudanças na UPA, têm se manifestado.

“Em grupos de mães e gestantes, circulam relatos sobre os atendimentos, destacando que antes eram realizados por profissionais competentes. Houve relatos de que Mayara debochava da conduta de médicos que internavam crianças, dizendo: ‘Seu filho nem precisa disso, só de um xarope, manda ele embora’. E pouco depois, o mesmo paciente voltava à UPA em estado pior, precisando ser internado novamente. É uma situação inaceitável e que contraria completamente o código de ética médica”, disse um dos profissionais.

A nossa reportagem conversou com alguns desses pais e responsáveis, que também relatam piora no atendimento. O pai de uma criança autista afirmou que seu filho foi mal atendido por um profissional inexperiente, resultando no agravamento do quadro.

“Médicos que conhecíamos foram dispensados e, no lugar deles, estão colocando profissionais inexperientes, que não têm a mesma dedicação e preparo para cuidar das nossas crianças. Na semana passada, a médica que atendeu meu filho mal olhou para ele, apenas receitou um antibiótico sem examiná-lo direito. Voltamos para casa, mas, no dia seguinte, ele piorou muito, com catarro e dor de cabeça forte. Retornamos à UPA e, dessa vez, fomos atendidos por um doutor que já trabalhava lá há muito tempo e que meu filho conhece e gosta muito. Ele pediu um raio-X do pulmão e da face, que confirmou que meu filho estava com sinusite avançada. Com a medicação certa, felizmente, ele já está melhor. Mas, para nossa surpresa, também descobrimos que esse médico havia sido demitido sem motivo, assim como os outros profissionais experientes que atendiam na unidade”, contou.

Uma mãe relatou longas esperas e médicos sem preparo.

“Tiraram os bons médicos e deixaram apenas os recém-formados, que não sabem nem diagnosticar as crianças direito. Eu fui à UPA hoje, e a diferença de antes para agora é enorme. Antes, o atendimento era rápido, mas agora você não sai de lá em menos de três horas. Tenho três filhos e sempre os levei para serem atendidos na UPA, mas agora está complicado. Os médicos em quem confiávamos foram embora, e os que ficaram não sabem nem receitar um remédio direito. Minha filha está doente, com febre até agora, e tudo que dizem é para voltar depois, se não melhorar. Como se a gente tivesse dinheiro para ficar comprando remédio o tempo todo, porque ainda tem isso, na própria UPA só tem dipirona, paracetamol e ibuprofeno. A situação está um desastre. Nós, mães que dependemos da UPA, estamos indignadas com essa mudança. Antes, pelo menos podíamos confiar nos médicos que atendiam nossos filhos. Agora, parece que ninguém se importa.”

A avó de uma terceira criança destacou a mudança na qualidade.

“Meu neto de cinco anos sempre precisou da UPA. Antes, o atendimento era mais ágil e de melhor qualidade. A gente chegava, os médicos viam a criança, examinavam direitinho, diziam o que ela tinha e prescreviam a medicação correta. Agora, está tudo diferente, com horas de espera. Semana passada, fui lá e fiquei horas. E nem estava tão cheio, mas havia mães desesperadas, crianças passando mal e ninguém para atender direito. Os médicos que sempre cuidaram bem das nossas crianças foram mandados embora sem explicação. Eram profissionais que a gente já conhecia, que sabiam tratar nossos filhos com respeito e atenção. Agora, colocaram uns médicos que nem olham direito para a criança. Parece que estão ali só para receitar qualquer remédio e nos mandar embora. Quando meu neto foi atendido, a médica só olhou de longe, receitou um remédio e mandou esperar melhorar. Mas melhorar como, se ele estava com febre alta há dias? A gente precisa de respeito! Não dá para aceitar que nossas crianças fiquem horas esperando, sendo que antes tudo funcionava direitinho.”

Aplicativo de rastreamento
Outra denúncia dos profissionais da unidade envolve a suposta obrigatoriedade de um aplicativo de monitoramento por GPS nos celulares dos médicos. Quem se recusasse a instalá-lo teria sido excluído da escala.

“Foi solicitado que baixássemos um aplicativo que exige check-in ao entrar na UPA e check-out ao sair, mas não leva em conta atrasos pequenos entre um plantão e outro. Quem trabalha em mais de um hospital pode ter dificuldades com isso. O mais grave é que o sistema permite alterações manuais. No fim do mês, podem modificar os horários como quiserem”, disse um médico.

“Por exemplo, se eu trabalho em um local durante a noite e saio às 7h da manhã para ir à UPA, costumo chegar entre 7h15 e 7h20. Os colegas seguram o plantão até eu chegar. No entanto, só consigo registrar minha entrada às 7h20. Esse aplicativo opera com monitoramento por GPS, permitindo o registro apenas dentro de um determinado espaço. Esse foi um dos questionamentos: como justificar um atraso de poucos minutos entre um plantão e outro? Isso é uma prática corriqueira em qualquer ambiente médico”, explicou outra.

A busca por respostas
Os denunciantes afirmam que tentaram contato com a administração municipal, incluindo o secretário de Saúde e o prefeito, mas ainda não obtiveram respostas concretas.

“Nos reunimos com o secretário de Saúde e com o prefeito. Explicamos tudo, mas até agora não tivemos resposta. Deixamos claro que não houve erro médico que justificasse as demissões. O que está acontecendo é uma perseguição pessoal”, disse um dos profissionais afastados.

O que dizem as partes envolvidas
O Em Dia ES procurou a Prefeitura de Linhares, a Secretaria de Estado de Saúde (Sesa) e o Consórcio Público da Região Polinorte (CIM Polinorte) para obter esclarecimentos sobre as denúncias.

A Sesa informou em nota que “com o objetivo de fortalecer a atenção ambulatorial especializada, o Governo do Estado realiza o cofinanciamento de consultas médicas e exames especializados para os municípios que são referência para a Unidade Cuidar de Linhares gerenciada pelo Consórcio CIM Polinorte. Os repasses financeiros por parte da Sesa estão em dia para a Rede Cuidar Linhares. Já a gestão da UPA Infantil de Linhares é exclusiva do município”

Buscamos a Prefeitura de Linhares para esclarecer os critérios adotados na substituição dos médicos, a existência de apurações internas sobre as denúncias de abuso de poder e interferência na administração, além das medidas que serão adotadas para garantir a transparência na contratação e a qualidade do atendimento pediátrico. No entanto, até o fechamento desta reportagem, não recebemos retorno do município.

Reforçamos que o espaço segue aberto para manifestações de todas as partes envolvidas.

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Atualizado: 04/04/2025 15:17

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