O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou nesta segunda-feira (19) que vê com satisfação a associação de sua gestão à criação de tributos voltados para as camadas mais ricas da sociedade, classificando a medida como “taxação BBB”. Em entrevista ao UOL News, Haddad afirmou que as reformas propostas pelo governo federal visam a justiça fiscal e argumentou que o principal entrave para a dívida pública brasileira são os juros reais elevados, e não o déficit primário.
Durante a conversa, o ministro abordou ataques recebidos nas redes sociais e o uso de apelidos pejorativos, como “Taxad”. Segundo Haddad, ele não se importa com as alcunhas e prefere destacar o ineditismo das medidas aprovadas no Congresso Nacional.
“Olha, eu fico muito feliz de ser lembrado como o único ministro da Fazenda dos últimos 30 anos que taxou offshore [fundos em paraísos fiscais]. Que taxou fundo familiar fechado. Que taxou paraíso fiscal. Que taxou dividendo. A oposição está certa. A taxação BBB saiu do papel. […] A taxação BBB que todo mundo conhece: bancos, bets e bilionários foram taxados”, afirmou.
Para o ministro, as aprovações tributárias do último ano tiveram o objetivo de cobrar “condomínio de quem mora na cobertura e não pagava”, aliviando a carga para pessoas de menor renda e atingindo quem utilizava mecanismos de isenção ou sonegação. “Quem é muito rico e não pagava imposto, agora está entendendo que vive em sociedade”, completou.
Juros reais e a dívida pública
Além da questão tributária, Haddad defendeu que a dívida pública nacional é pressionada pelo patamar dos juros reais da economia, a taxa nominal descontada a inflação, e não por excesso de gastos. O ministro citou que, em dois anos, o déficit primário foi reduzido em 70%.
De acordo com os dados apresentados por Haddad, o déficit de 2025 ficou em 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB), já considerando exceções fiscais como o ressarcimento de descontos indevidos do INSS e o Plano Brasil Soberano. Ele comparou o cenário atual com a projeção de déficit superior a 1,6% do PIB em 2023, herdada da gestão anterior.
“O problema da dívida tem a ver com o juro real, não tem a ver com o déficit, que está caindo”, pontuou, ressaltando que a meta de resultado primário para 2026 é ainda mais exigente do que nos anos anteriores.
Sobre a Taxa Selic, atualmente estabelecida em 15%, o ministro foi categórico ao afirmar que existe margem para redução: “Óbvio que, quando me perguntam, eu falo que tem espaço para cortar porque eu acho que tem”.
Banco Central e regulação de fundos
Haddad elogiou a atuação de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central (BC), citando especificamente a condução do escândalo envolvendo o Banco Master. Segundo o ministro, o problema foi herdado da gestão passada. “O Galípolo descascou um abacaxi. E descascou o abacaxi com responsabilidade”, disse.
Ainda no âmbito da regulação financeira, o ministro da Fazenda defendeu a ampliação do perímetro regulatório do BC. A proposta, que está em discussão no Executivo, sugere que a fiscalização dos fundos de investimentos, tarefa hoje a cargo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), passe para a autoridade monetária.
“Tem muita coisa que deveria estar no âmbito do Banco Central e que está no âmbito da CVM, na minha opinião, equivocadamente”, avaliou Haddad, citando a forte intersecção entre fundos, finanças e a contabilidade pública.
Eleições e papel do Estado
Questionado sobre o cenário político, Haddad afirmou que não pretende se candidatar a cargos públicos nas próximas eleições, tema que tem conversado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora a questão não esteja definitivamente fechada.
Ele analisou que a economia, apesar de importante, não será necessariamente o fator decisivo no pleito, citando pesquisas que apontam a segurança pública e o combate à corrupção como grandes temores nacionais.
Por fim, o ministro rebateu o argumento de empresários de que a geração de empregos seria suficiente como contrapartida social. “Às vezes o empresário fala, ‘eu gero emprego’. Mas o funcionário dele não tem dinheiro para pagar escola”, disse Haddad, reforçando que cabe ao Estado prover bens essenciais como saúde e educação que o salário, por si só, não cobre.


















